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Ìyálórìsà responsável pelo Ilê Ìyába Àse Òsun Doko, de Nação Ijexá, localizado na cidade de Gravataí-RS; filha de Pai Pedro de Oxum Docô. Contatos fone:(51) 9114-2964 ou e-mail fernanda__paixao@hotmail.com

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012


Sempre é tempo de melhorar, crescer, evoluir, concluir projetos e ousar ir mais além... 

E um pouco mais ainda! 

O hoje é o resultado do que plantamos ontem.

Pra amanhã ser diferente, hoje temos que plantar diferente.

E cada instante é novinho em folha! 

Sempre podemos mudar... 

Basta estar disposto a percorrer o caminho necessário, pagar o preço pelas escolhas e assumir a responsabilidade pela própria vida!

O tempo é implacável, passa mesmo, pra todos!!! 

Como vamos utilizá-lo é o que realmente 
FAZ A DIFERENÇA!

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Os Orixás adquirem seus poderes


Numerosos Òrìsà estavam vivendo na Terra recém-criada por Olórun, mas ainda sem terem todos os poderes pelos quais são conhecidos atualmente. Sempre que havia necessidade de o povo fazer coisas importantes e com segurança, rogavam a Olórun ou a Òrúnmìlà, E isso estava desagradando aos Òrìsà.

Certo dia, Òrìsà Oko, conversando com Òsóòsì, disse: "Aqui estamos morando entre os seres humanos. Somos distinguidos? Se o povo necessita de alguma coisa, vai pedir a Òrúnmìlá. Se tivéssemos o conhecimento de algum poder, o povo não iria importunar constantemente Òrúnmìlà." Dizendo isso, resolveu ir falar diretamente com Òrúnmìlà:

"Eu não tenho poderes que me fazem sobressair entre os seres humanos criados por Obàtálá. Você, Òrúnmìlà, que tem acesso direto a Olórun, poderia dotar-me de algum atributo especial. Assim, o povo da Terra viria a mim rogar por socorro em seus momentos de aflição." Òrúnmìlà ouviu atentamente o pedido feito e disse: "Sim, talvez tenha razão nisto. Vou analisar o assunto." Òrìsà Oko partiu e Òrúnmìlà seguiu seu caminho.

Mais adiante encontrou Ògún, que lhe perguntou: "Eu não sou um Òrìsà? Também devo ter poderes. Todas as vezes que alguma coisa importante é pedida pelo povo, este vem procurá-lo. É Òrúnmìlà isso, Òrúnmìlà aquilo. Dê-me um conhecimento especial, de modo que eu possa fazer algo para manter o mundo funcionando." Òrúnmìlà respondeu: "Sim, tenho estado pensando acerca disto. Verei o que posso fazer."

E, assim, seguiu seu caminho, encontrando outros Òrìsà. Èsù, que já tinha conhecimento da linguagem, foi até Òrúnmìlà buscar mais conhecimentos. Sàngó também o procurou; Òsányín foi até ele e, depois deles, outros mais também, todos perguntando e pedindo um poder especial. 
Òrúnmìlà estava angustiado. Pensou: "Tenho por todos os Òrìsà a mesma afeição. Se eu der alguma coisa para um deles, os outros certamente irão queixar-se. Tenho muitos poderes para serem divididos. Para quem eu deveria dar este ou aquele poder?" Por causa do assunto surgido, Òrúnmìlà tornou-se arredio, não tocava em nenhum alimento e mal conseguia dormir à noite. 

Os dias foram se seguindo e Òrúnmìlà tomava rumo pelos campos, pensativo e analisando a questão de como poderia dividir os poderes entre os Òrìsà sem criar problemas entre eles. E estava pensando nisso quando encontrou Agemo, o camaleão. "Você, Òrúnmìlà, o porta-voz de Olórun sobre a Terra, por que está tão deprimido?" Òrúnmìlà respondeu: "Um por um, os Òrìsà vêm até mim pedir para que eu lhes dê um poder especial, de modo que eu possa aliviar o meu trabalho neste sentido. De fato, estou sobrecarregado de atendimentos e isto seria para mim uma forma de suavizar o meu trabalho. Mas existem tantos poderes, alguns grandes, outros pequenos. Se eu der alguma coisa grande para um, os outros ficarão magoados. Quero tratar todos os Òrìsà com igualdade. Como posso fazer isso de maneira que haja harmonia em vez de discórdia?"

Ouvindo tudo, por algum momento, Agemo pensou e disse: "Talvez seja melhor deixar a distribuição dos poderes à sorte. Volte para o Òrun e depois envie uma mensagem para anunciar que, num determinado dia, você derramará os poderes sobre a Terra. Deixe cada Òrìsà agarrar o que puder. Qualquer poder que um Òrìsà pegar desta forma será dele, então." E concluiu: "Enviando a mensagem você terá dado a notícia, e nenhum Òrìsà poderá dizer que Òrúnmìlà o abandonou."

Diante do que ouviu, Òrúnmìlà relaxou da tensão a que estava sendo submetido, por perceber sabedoria naquelas palavras, assim como a solução para as suas dúvidas. Então, disse: "Agemo, embora você seja pequeno, seu nome será grande. Farei exatamente o que me diz." Em seguida, retornou ao Òrun a fim de preparar a distribuição dos poderes. E enviou a seguinte mensagem na direção da morada de cada Òrìsà: "No quinto dia após este, vocês deverão se dirigir ao campo livre de Ilé Ifè. Os poderes serão espalhados do alto e todos deverão agarrar o que puderem. Dessa forma, tudo irá depender de cada um." Todos os Òrìsà concordaram, agradecidos, enaltecendo a sabedoria de Òrúnmìlà na distribuição dos poderes. 

No quinto dia os Òrìsà seguiram para o local determinado e aguardaram. Do alto começaram a surgir sons estranhos acompanhados pelo movimento agitado da brisa que pairava sobre todos. Foi nesse instante que os poderes começaram a cair do Òrun. E todos começaram a correr para aqui e acolá com as mãos estendidas. Enquanto um agarrava um poder, outro pegava o que podia. Alguns poderes escapavam de suas mãos e caíam na relva ou sobre as árvores. 

A correria era grande, com os Òrìsà procurando em todas as direções. Uns eram mais rápidos que outros.  Os mais ágeis e enérgicos conseguiram pegar maior número de poderes. Mas todos receberam alguma coisa.


Èsù foi dos mais persistentes, e não exitou em empurrar quem estivesse por perto; por causa disso pegou grande parte dos poderes, entre eles o de ser guardião do Àse de Olódùmarè e o transportador das oferendas votivas. Em face disso, os Òrìsà e os seres humanos, dali em diante, passaram a tratá-lo com respeito especial e procuraram evitar tornar-se seu inimigo. 

Sàngó, através do que conseguiu apanhar, tornou-se o dono da pedra, do relâmpago, adquirindo o título de Jàkúta, o arremessador de pedras. Mais tarde, quando assumiu o reino de Òyó, veio a ser denominado Oba Jàkúta.

Sànpònná veio a ser o senhor das doenças, em especial a varíola; Òsányin adquiriu o conhecimento do uso litúrgico e medicinal das plantas; Òrìsà Oko tornou-se o senhor da fartura das colheitas; Ògún ficou com o poder do uso dos metais. 

Assim, cada Òrìsà recebeu a sua parte dos poderes do Òrun, como forma de beneficiar os seres humanos através de pedidos e invocações.

CONCLUSÃO:
A busca de poderes pelos Òrìsà lembra que todos os seres são portadores de poderes e que todos esses poderes são dados pelo Ser Supremo. Não se admite a passividade com o intuito de aguardar que o sucesso e as coisas boas da vida caiam nas mãos sem esforço algum. É preciso operar nesse sentido, com ações que objetivem despertar todos os poderes existentes no ser humano.

NOTA:
Òrìsà Oko: divindade tutelar da agricultura e da fertilidade da terra.

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O que são as quartinhas de barro e para que servem?



As denominadas "quartinhas de barro" estão presentes em todo o culto africano, nas mais diversas formas em que este se apresenta e acompanham todos os assentamentos de Òrìsà.

Devem ser feitas de barro natural (amò) e em seu interior é colocada água (omi). A água colocada em seu interior transpira e evapora, necessitando assim de um abastecimento constante.

As águas (omi), e o barro primordial (amò), são os elementos utilizados por Òsàlá para moldar o ser humano, para que, após fisicamente moldado, Olódùmarè lhe insufle o Emí, princípio vital representado pela respiração, gerando assim a vida.

As quartinhas então representam vida e criação, elementos sem os quais não existe Òrìsà, tampouco àse.

Sua natureza sempre mutável, precisando constantemente de abastecimento, nos lembra que a vida sempre está em movimento, sendo necessária a renovação contínua e periódica do àse (energia dinâmica em movimento), tanto individual quanto coletivo, princípio este que permeia todo o culto a Òrìsà.

Nota: Essa tarefa de esculpir a figura física dos seres humanos faz Òsàlá ser chamado de Alámò Rere, o perfeito escultor, embora alguns sejam produzidos com deficiência física.

sexta-feira, 23 de março de 2012

O que ética e moral têm a ver com culto a Òrìsà?

Òsàlá representa a idéia de pureza ética, conforme seu nome primordial o define - Obàtálá - Oba ti àlà, o rei cuja roupa é branca, ou Oba ti olá, o rei que possui honra. A palavra Àlà é entendida não apenas como um tecido da cor branca, mas sim como algo puro, sem mácula. Quando se canta “Nwon ò ni’ta epo si àlà re o” está se querendo dizer, nenhum óleo de palmeira deve respingar em sua roupa branca, numa alusão à reputação de uma pessoa que deve ser sempre boa e imaculada. Òsàlá nos mostra sua preferência por tudo que é branco, sinônimo de pureza e retidão ética, e nos lembra da necessidade de nos depurarmos e purificarmos. 


Os que sugerem que religião não tem necessariamente uma conexão com moralidade, e acham que tudo deve ser resolvido com Ebo ou outras obrigações, revelam falta de conhecimento, ou mesmo de interesse em saber discernir as coisas, em conhecer o culto a Òsàlá em toda a sua essência. A ética revelada através de seus exemplos, nas histórias e mitos, demonstra uma dignidade e caráter como modelo de comportamento a ser seguido.


Òsàlá é uma das raras divindades que as histórias revelam como possuidor de apenas uma mulher, chamada de Yemòwo (vários autores confundem Yemòwo com Nàná). Isto torna o fato bem interessante, em razão de ser tradição entre as famílias yorubás o senhor da casa - Onílé -  ser possuidor de várias mulheres. 


Conta-se que certa vez trouxeram a Òsàlá a notícia de que o mundo estava indo muito mal. Ninguém estava mais se entendendo, o trabalho não prosperava e havia infelicidade geral. Procurando saber o que estava acontecendo, Òsàlá descobriu que a causa de tudo era o falatório e as brigas das diversas mulheres dos homens. Então ele disse:


“A ò lé gbé aarin ògójì enìa k’éni ó má sì wí. Òrìsàálá ri on’igba aiya n’lèk’ó too f’owó mu Yemòwo nìkan; ò lè gbe aiye Olù’fè k’órùn k’aiya jékióná gún.”


“É totalmente impossível viver no meio de quarenta pessoas (mulheres) e não dizer coisas erradas. Òsàlá vê a possibilidade de casar com duzentas mulheres, mas ainda assim une-se apenas a Yemòwo; aquele que tem a responsabilidade cívica de Ifè não pode esperar ter êxito se tiver, ao mesmo tempo, que lidar com uma porção de mulheres.”


A moralidade é basicamente fruto da religião. O conceito de Deus para o homem tem tudo a ver com o que é feito para dar normas à moralidade. Deus não é apenas o criador de todas as coisas, como também o juiz de todos e o encaminhador para os diversos planos do Òrun. O trabalho e as pessoas de cada divindade, as ações humanas e ofensas rituais estão sob inspeção regular; de tempos em tempos, relatos são feitos a Ele. Para este fim, Èsù é designado para inspeção geral da conduta de todos. Èsù é a efetiva regra do universo, o princípio dinâmico e fiscal de Olódùmarè. 


A ética está exemplificada no comportamento de Òsàlá e nos relatos dos Odù, de raro acesso aos praticantes dos cultos afro-brasileiros aqui do Sul do Brasil. Em todos eles, encontramos a lei moral, com suas regras e determinações de conduta, que podemos relacionar a fim de serem devidamente aplicadas.


Ìwà, o caráter, é o mais importante de todos os valores morais e o maior atributo do homem. A palavra é formada pelo verbo Wà, ser, haver, existir, e a vogal I. Ìwà Pèlè é uma pessoa de bom caráter que não entra em choque com nenhuma força humana ou sobrenatural, vivendo em completa harmonia com todas as forças que governam o mundo. Esse fato é o que pesa no julgamento divino e define o bem-estar na Terra e o seu lugar futuro no pós-vida. A expressão abaixo define o seu conceito com a religião:


“Ìwà lèsin.” O caráter é a religião.


Oore, a bondade, é considerada uma grande virtude, quando envolve generosidade e hospitalidade. Se rere, fazer o bem, é a tarefa das grandes realizações diárias.


Sùúru, a paciência, é entendida como o fator mais importante para se evitar precipitações que impliquem a perda de caráter. A paciência é o primeiro filho de Olódùmarè e o pai de Ìwà, o caráter.


Òwò, o respeito a que todos se devem entre si, sobretudo aos mais velhos pela sua antiguidade e à experiência admirável de vida.


Outras virtudes: Olóòtóo, uma pessoa verdadeira é virtude essencial numa comunidade; Olóòdodo, ser justo e honesto; e Sé ìféni, fazer a caridade.


A pessoa que segue os preceitos e caminhos dos Òrìsàs, vivencia seu culto, deveria, também, vivenciar esses valores éticos e morais em suas vidas cotidianas, para assim fortalecer em si e ser um agente possuidor e multiplicador do àse. Sempre que praticamos atos que atentam contra nosso caráter, maculamos nossa espiritualidade, nossa força vital, nosso àse pessoal e nossa orixalidade.  



Bibliografia consultada: Livro "As Águas de Oxalá: Àwon Omi Òsàlá", de José Beniste. 

MORTE, ANCESTRAIS E ANTEPASSADOS NA CONCEPÇÃO YORUBÁ

Os yorubá, como os demais grupos africanos, crêem na existência ativa dos antepassados. A morte não representa simplesmente um fim da vida humana, mas a vida terrestre se prolonga em direção à vida além-túmulo, exatamente em algum dos nove espaços do òrun, o domínio dos seres desprovidos do èmí (representado pela respiração, é a força vital que o corpo humano recebe de Olódùmarè. Quando uma pessoa morre, diz-se: Èmí rè ti lo - “Seu èmí foi embora”). Assim a morte não representa uma extinção, mas mudança de uma vida para outra. 


Os antepassados ou ancestrais são denominados Òkú òrun e Àgbagbà (Òkú: morto, cadáver). Um antepassado é alguém de quem uma pessoa descende, seja através do pai ou da mãe, em qualquer período do tempo, e que o ser vivente conserva relações filiais afetuosas. Somente alcançarão a condição de Ancestral com merecimento de culto aqueles que atingiram uma idade avançada, com uma vida de boa qualidade e trabalho expressivo para a sociedade, além de terem deixado bons filhos. Para os yorubá, um casamento sem filho é algo mal sucedido. Na verdade, seu sistema de valores tem por base três coisas: Owó (dinheiro), Omo (filhos), e Àíkú (vida longa). A vida longa é considerada a mais importante porque proporciona a oportunidade que pode tornar possível as duas outras.


São esses e toda a linhagem de gerações passadas que, depois da morte, se transformam, para seus familiares, nas figuras mais importantes do mundo espiritual. Embora os ancestrais compreendam membros masculinos e femininos das gerações anteriores, para o yorubá os ancestrais masculinos são os mais importantes.


Ao seguirem para o òrun, os ancestrais são libertos de todas as restrições impostas pela Terra; dessa forma, adquirem potencialidades que podem ser usadas para beneficiar seus familiares, que ainda estão na Terra. Por essa razão, é necessário mantê-los num estado de paz e contentamento. 


Quando dizemos que existe um culto ao ancestral, queremos dizer que o que existe de fato é uma manifestação de relacionamento familiar indestrutível entre o familiar que partiu e seus descendentes que aqui ficaram. A palavra culto então colocada tem o significado de homenagem.


O encaminhamento do espírito, depois dos rituais realizados, corresponde a passar de volta pelo portão do Oníbodè (o guardião da entrada na fronteira entre o òrun e o àiyé) em direção a Olódùmarè, para receber o julgamento de seus atos na Terra. De acordo com o òrun ao qual foi destinado, continuará a exercer suas funções familiares, agora de modo mais poderoso sobre seus descendentes que a ele continuam a se referir como Bàbá mi (meu pai) ou Ìyá mi (minha mãe).


Ikú, a morte, é visto como um agente criado por Olódùmarè para remover as pessoas cujo tempo na terra tenha terminado. A morte, denominada Ikú, e trata-se de um personagem masculino. Sua lógica é para as pessoas mais velhas, e que, dadas certas condições, devem viver até uma idade avançada. Por isso, quando uma pessoa jovem morre, o fato é considerado tragédia; por outro lado, a morte de uma pessoa idosa é ocasião para se alegrar. Costuma-se dizer: Ikú ki pa ni, ayò l’o npa ni (a morte não mata, são os excessos que matam).  


Embora a morte seja inevitável, e imprevisível, ela pode sofrer alterações através da intervenção de Òrúnmìlà ou de qualquer outro òrìsà junto a Olódùmarè. Isto reflete a necessidade de um constante acompanhamento da situação de uma pessoa através do jogo. Daí o provérbio: Arùn l’a wò, a ki wo Ikú (A doença pode ser curada, a morte não pode ser remediada).


Ikú está relacionado com a terra e sua missão é a de restituir à terra o que lhe pertence, conforme o mito trazido por Juana Elbein dos Santos no livro “Os Nagô e a Morte”, pág. 107:


“Quando Olórun procurava matéria apropriada para criar o ser humano, todos os ebora partiram em busca da tal matéria. Trouxeram diferentes coisas, mas nenhuma delas era adequada. Eles foram buscar lama, mas ela chorou e derramou lágrimas. Nenhum ebora quis tomar da menor parcela. Mas Ikú apareceu, apanhou um pouco de lama e não teve misericórdia de seu pranto. Levou-o a Olódùmarè, que pediu a Òrìsàlá e a Olúgama que o modelaram e foi Ele mesmo quem lhe insuflou seu hálito. Mas Olódùmarè determinou a Ikú que, por ter sido ele a apanhar a porção de lama, deveria recolocá-la em seu lugar a qualquer momento, e é por isso que Ikú sempre nos leva de volta para a lama.”


Sendo assim, Ikú é um agente primordial que torna possível o ciclo: nascimento - vida - morte - renascimento (ìbí - ìyè - ìkú - àtúnwá). 




Fontes: livros "Òrún Àiyé- O Encontro de Dois Mundos" de José Beniste, e "Os Nagô e a Morte" de Juana Elbein dos Santos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A RELIGIÃO QUE EU ACREDITO


"A Religião que eu acredito é aquela construída por todos, no dia-a-dia, com sacrifício, suor,  respeito, 
entrega, fé e amor ao Òrìsà...

A Religião que eu acredito abomina a feitiçaria, o topa tudo por dinheiro, 
o materialismo desenfreado...

A Religião que eu acredito tem no Òrìsà o início, o fim e o meio, último e único recurso...

A Religião que eu acredito é a das velhas e 
negras senhoras, de fé inabalável 
e sabedoria que brota das raízes...

A Religião que eu acredito adora árvores como deuses, e tem na vida seu bem supremo...

A Religião que eu acredito é aquela onde a vestimenta não suplanta valores e onde não 
se substitui a forma pelo conteúdo...

A Religião que eu acredito resistiu a escravidão, 
ao porrete da polícia, a marginalização e
 demonização sempre lhe imputada...

A Religião que eu acredito não é um modismo, 
um suvenir, algo descartável que 
jogamos fora quando não nos serve mais...

A Religião que eu acredito não é um show de 
estética extravagante, circo dos incaltos, 
mas um ritual de celebração a vida... 

A Religião que eu acredito é uma experiência 
vivida de amor pleno, fé e respeito aos Òrìsà, 
dentro e fora de nós...."

Fonte: http://iyalorisaelainetiosun.blogspot.com
Com alterações e adaptações.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Como surgiu a consulta a Ifá



Este mito fala sobre o retorno de Òrúnmìlà para o òrun, ficando os ikin¹ como seus representantes na Terra. Tem início num determinado tempo, quando Òrúnmìlà ainda não possuía filhos e seus oponentes o recriminavam: “Bàbá ò ní bi omo ni Ifè.” [“O pai que não tem filhos em Ifè.”]. Mas estavam enganados, pois mais tarde ele veio a ter oito filhos que se tornariam reis em várias cidades yorubás.


O primeiro filho foi denominado Alárá, o rei da cidade de Ará; o segundo foi Ajerò, rei de Ìjerò; o terceiro, Olóyémoyin, rei da cidade de Oyé; o quarto, Alákegi; o quinto, Óntangi-òlélé, rei de Ìtagi; Eléjèmòpé, de Ìjèlú; Owaràngún-àga, título de sacerdotes de Ifá; e Olówó, rei de Òwò.


Òrúnmìlà sentiu-se realizado, e, por ocasião de uma grande solenidade, quando celebrava um ritual, mandou chamar seus filhos. Atendendo ao chamado, todos prestaram obediência ao pai, saudando-o com a expressão “Àborúboyè bo síse.” [“Que os rituais sejam abençoados e aceitos" ou "Que o sacrifício seja abençoado e aceito.”]. Apenas Olówó se recusou a saudar Òrúnmìlà. Além disso, ele estava todo vestido de forma idêntica ao pai, o que significava uma afronta e desrespeito à autoridade paterna. 


Òrúnmìlà exigiu que ele dissesse as mesmas palavras dos irmãos, mas ele se recusou, permanecendo de pé e dizendo:
Òrúnmìlà, você se veste com a roupa òdùn², eu me visto com a mesma roupa; você empunha o òsùn³ feito de bronze, também tenho o meu cajado de bronze; suas sandálias são de bronze, as minhas também são; você usa uma coroa, e eu também. Assim, uma cabeça coroada não se curva para outra cabeça coroada.”


Diante do que estava vendo - uma total afronta à sua autoridade-, Òrúnmìlà se enfureceu e arrancou o òsùn das mãos de Olówó, o que significava cassação de sua autoridade. Mas não ficou apenas nisso. O fato levou Òrúnmìlà a se retirar do plano terrestre e retornar ao òrun. O resultado foi a fome, a peste, as doenças, a esterilidade, pois Òrúnmìlà representava o princípio da ordem, da sabedoria, da fertilidade. Sua partida levou a Terra a um colapso, ameaçando a extinção humana.


Os habitantes da Terra se viram clamando pela sua volta. Os rios secaram, os doentes continuaram enfermos, as espigas de milho brotavam mas não amadureciam. Sacrifícios foram feitos, mas sem resultado algum. 


Pediram que os filhos intercedessem pelo seu retorno a fim de restaurar a ordem das coisas.


Diante disso, os filhos foram até o òrun para pedir que o pai voltasse. Rogaram e recitaram preces de louvores. Mas o pai, mesmo com a decisão já tomada, ordenou-lhes que estendessem as mãos para a frente e deu-lhes os 16 ikin, os coquinhos sagrados de Ifá, dizendo-lhes: “Quando chegarem em casa, se desejarem possuir dinheiro, serão esses ikin que deverão consultar; se desejarem esposas e filhos, serão esses ikin que deverão consultar.”


Fazendo um determinado ritual, Òrúnmìlà reassumiu sua autoridade, colocando-se como a ligação entre o òrun e o àiyé. Deixou de herança aos seus filhos e discípulos o sistema oracular que permite invocá-lo em todos os momentos necessários.

NOTAS:
  1. Ikin: Coquinhos da palmeira do dendezeiro.
  2.  Òdùn: Um tipo de traje yorubá com detalhes feitos em palha-da-costa.
  3. Òsùn: Um bastão sagrado utilizado apenas pelos Bàbáláwo, símbolo de uma divindade conhecida pelo mesmo nome. É usado como um cajado e sempre posicionado ereto e colocado de pé apoiado numa parede.
Fonte:  Livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento", de José Beniste

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Mojubá Origens

Série documental exibida pelo canal Futura sobre 
toda cultura e religiosidade Afro-Brasileira.

Muito bom!



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A designação do título de Òrìsà nlá

Òrúnmìlà

O universo divino de Olódùmarè foi constituído de seres primordiais; entre eles, os mais antigos: Obàtálá e Òrúnmìlà. Com a criação do novo mundo, decidem ambos instalar-se em uma das regiões da Terra. Òrúnmìlà leva todo o seu material divinatório para Òkè Ìgètí e ali passa a dar assistência àqueles que o procuram, desempenhando as funções designadas pelo Ser Supremo - a de atendimento e orientações sobre o plano de vida estabelecido. Quanto a Obàtálá, ele toma o caminho para as terras de Abéòkúta.


Obàtálá
No começo de tudo, quando Obàtálá criou a Terra e todos os seus atributos, ele fez a distribuição de todas as partes para todo o povo nelas viver suas vidas, cabendo para si a região mais árida e coberta de pedras, pois não queria privilégios. Então, em Abéòkúta, ergue a sua fazenda cujo terreno era mais rochedo do que solo fértil para plantação. Apesar de toda adversidade, suas terras eram as que mais produziam colheitas de todos os tipos. E o povo comentava: “Como podem as colheitas terem crescido em tal lugar?” Enquanto todos tinham trabalho árduo pela manhã até a noite, a produção da terra não se comparaca com a produção das terras de Obàtálá. Apesar de pouco trabalho, suas terras estavam sempre verdes, chovesse ou não; nunca havia falta do grão de milho ou de inhame.


O povo passou a comentar o fato, sentindo-se ofendido. Dizia: “Que espécie de pessoa é Obàtálá? Nossa parte da terra, melhor que a dele, não nos proporciona fartura para nos tornar ricos.” com esse pensamento cada vez mais tomando conta da cabeça de todos, passaram a cobiçar as terras dele. Com isso, arquitetaram planos para tomar suas terras. Esqueciam quem era Obàtálá e o que ele havia feito por todos. Passaram a observar seus passos e ficaram sabendo que ele estava interessado em contratar um ajudante. 


Era por isso que Obàtálá havia sido visto no mercado de Emùré! Adquiriu um escravo cujo nome era Àtowódá, que demonstrou ser muito prestativo no início, trazendo-lhe muita satisfação. Após algum tempo, o escravo pediu a Obàtálá um pedaço de terra para o seu cultivo. De bom grado lhe foi dado um pedaço de terra ao lado de uma montanha situada não muito longe da casa de Obàtálá. 


Em poucos dias, Àtowódá limpou tudo, transformando-o numa pequena fazenda, e ali construiu uma cabana. Isso impressionou muito Obàtálá, que depositou nele toda a sua confiança.


Àtowódá, porém, não tinha bons propósitos. Seu desejo, na verdade, era destruir Obàtálá e, com essa finalidade, vinha ordenando seu tempo, pensando no melhor modo de levar a cabo seu objetivo. E logo encontrou um jeito. Observou que, no caminho íngreme que levava até a sua cabana, havia pedras grandes encaixadas no solo e que soltando o solo abaixo dessas pedras poderia facilmente causar o seu rolamento montanha abaixo para esmagar Obàtálá a qualquer momento que subisse o caminho para fazer uma visita à sua fazenda. Então, selecionou cuidadosamente a pedra, de forma que, com um pequeno empurrão, ela pudesse rolar montanha abaixo para atingir Obàtálá.


Alguns dias mais tarde, Obàtálá seguia em sua caminhada habitual em visita às suas terras. Do topo da montanha, Àtowódá o espreitava. A habitual roupa branca de Obàtálá destacava-o do fundo verde de suas plantações. Quando Àtowódá se certificou de que não haveria chance para Obàtálá evitar que a pedra o atingisse, deu um empurrão na maior de todas. A pedra saiu rolando e se dirigiu a toda a velocidade para onde se encontrava Obàtálá, o qual, paralisado pela surpresa, não conseguiu escapar: foi atingido em cheio, e seu corpo, partido em muitos pedaços.




A notícia se espalhou por todos os lugares. Obàtálá havia sido destruído por homens invejosos. Èsù foi um dos que tomaram conhecimento da notícia e seguiu rápido para o local afim de verificar o ocorrido, seguindo depois para o òrun, com o intuito de relatar a tragédia a Olódùmarè. Este designou Òrúnmìlà para encontrar as partes do corpo de Obàtálá e trazê-las de volta. Òrúnmìlà seguiu imediatamente para o local, e, após um certo espaço de tempo perdido em lamentar o fato, executou um ritual que tornava possível a ele localizar todos os pedaços do corpo espalhados. Ele os recolheu num grande igbá e os levou para Irànje, antiga cidade de Obàtálá. Lá depositou uma porção dos pedaços que possibilitava fazê-lo renascer no òrun. O restante das partes do corpo, ele espalhou por “todo o mundo”, fazendo com que fossem surgindo novas divindades denominadas então de Òrìsà, daí a contração da frase “Ohun ti a ri sà”, que significa “o que foi achado e juntado”, alusão ao fato do recolhimento dos pedaços do corpo de Obàtálá.


Como as outras divindades surgidas do corpo de Obàtálá passaram a ter nomes derivados do dele, tornou-se necessário destacar o seu nome como Òrìsà nlá - O Grande Òrìsà -, que representa a soma de todos os Òrìsà juntos.


CONCLUSÃO:
Nos primórdios do mundo nagô, deu-se a oportunidade de uma convivência pacífica entre os seres humanos e as divindades. São dessa fase as inúmeras histórias relacionadas com os Òrìsà. Neste mito há a sugestão de que Òrìsà era originalmente uma unidade e que o processo de fragmentação transformara uma mesma divindade em várias outras. Revela, ainda, o arquétipo das pessoas identificadas com este Òrìsà: são pessoas constantemente iludidas em sua confiança. Embora portadoras de propósitos criadores e de grande bom-senso, têm a tendência de serem vítimas de inveja e falta de reconhecimento da obra que realizam.


NOTAS:

  • Òkè Ìgèti: Local montanhoso onde se presume que Òrúnmìlà tenha vivido, conforme alguns relatos da literatura de Ifá.
  • Abéòkúta: Cidade yorubá onde é mantido o culto a Yemoja, que é reverenciada no rio Ògùn, que corta toda a região. Abé - embaixo; òkúta - pedras.
  • Igbá: Fruto da cabaceira (Curcubita lagenaria) utilizado como recipiente e utensílio diversos, de acordo com a forma apresentada: akèrègbè - cabaça inteira; igbá - cortada ao meio; ahá - formato de copo; ìgbájè - em forma de prato.


(Extraído do Livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento", de José Beniste)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Òsàlá- O Grande Òrìsà



Principal divindade cultuada dentre os Òrìsà na escala religiosa. Sua cor branca representa sua própria essência ética e seu princípio criador. Ele é revestido de um poder absoluto em razão do Odù com que foi investido. A teologia yorubá o denomina “o gerado por Olódùmarè” no sentido de que todos os seus atributos derivam diretamente do Ser Supremo.


Òrìsà Funfun, divindades do branco, é a denominação dada à linhagem de divindades identificadas com a cor branca. 


Òsàlá é a forma reduzida a expressão Òrìsà nlá, ou Òrìsàálá - o Grande Òrìsà - título dado a Obàtálá, para diferenciá-lo das demais divindades na escala hierárquica. 


É visto como pai de todos os Òrìsà e a maior de todas as divindades, sendo por isso descrito pelos mais antigos como a imagem ou o símbolo de Olódùmarè na Terra. Um de seus títulos evidencia sua posição - Ibìkejì Èdùmàrè, a segunda pessoa de Olódùmarè, ou ainda, o seu vice-regente aqui na Terra, numa referência ao fato que os atributos de Olódùmarè são revelados através dele. Por este motivo, durante muito tempo os estudiosos o confundiam com o Ser Supremo. 


Òsàlá representa o princípio criador  e formalizador das idéias, daí ser denominado Elédá, o criador, em razão de Olódùmarè o ter indicado para a criação da Terra, com todos os seus atributos, e também para a criação do homem físico. As águas, Omi, e o barro primordial, Amò(n), são os elementos utilizados por Òsàlá para moldar o ser humano para, depois, Olódùmarè insuflar nele o princípio vital, o Emí, representado pela respiração, que irá lhe dar a vida. Essa tarefa de esculpir a figura física o faz ser chamado de Alámò(n) Rere, o perfeito escultor, embora muitas figuras humanas sejam esculpidas com deficiências físicas.


Amò(n) é o barro utilizado para a confecção de uma pequena vasilha denominada quartinha e que acompanha todos os assentamentos de Òrìsà. Por ser de barro natural e sem qualquer tipo de pintura, a água colocada em seu interior transpira e evapora, necessitando, assim, de um abastecimento constante. É uma lembrança do ser, feito do barro primordial, com o elemento da vida, Èmí.


Esse trabalho de criação o fez ser investido da condição de Alábáláse, aquele que tem o poder de criar com autonomia, aquele que sugere, Abá, e realiza com autonomia, Àse. É a dotação de um atributo de autoridade suprema para falar, agir e ser obedecido. Criar como bem lhe aprouver justifica a criação dos seres humanos perfeitos ou defeituosos: Abuké (corcunda), Àfin (albino), Kólòlò (gago), Aro (coxo), Iràrá (anão), Odi (mudo), Yaro (aleijado), Olójukan (caolho), Apákan (um braço só), Itíkan (uma orelha só), Ègbà (paralisia), Adití (surdo-mudo)...


Òsàlá dá forma às crianças e coloca-as no útero de suas mães. É assim o responsável pelas caracterizações normais e anormais dos seres humanos. As deformidades apresentadas ou que aparecem mais tarde, todas são encaradas como marcas especiais do poder de Òsàlá. A seguinte oração é típica das muitas que são recitadas:


“Aláàbáláàse
Ata ta bí àkún 
Òrìsà so mí di eni
So mi di eni èye
Obàtálá ma fiké pòn mi
Omo ni o fi fún mi”


“Aquele que sugere e determina
Aquele que é muito poderoso
Torne-me uma pessoa competente e honrada
Não ponha uma corcunda nas minhas costas
É uma criança(filho) que deve me dar.”


Para uma mulher grávida é dito:


“Ki Òrìsà ya’nà ire ko ni o.”
Que o Òrìsà crie uma boa obra de arte.


Dar filhos às mulheres estéreis e modelar a forma da criança no ventre materno originou o seguinte cântico:


Eni s’ojú, se’mú
Òrìsà ni ma sìn 
Adá’ni baú ti ri
Òrìsà ni ma sìn 
Eni rán mi wá 
Òrìsà ni ma sìn”


“Aquele que faz os olhos, faz o nariz
É o Òrìsà a quem vou cultuar
Aquele que cria como quer
É o Òrìsà a quem vou cultuar
Aquele que me enviou aqui
É o Òrìsà a quem vou cultuar”




Tudo o que é seu é branco: roupas, contas, comidas, animais, insígnias; o que representa a pureza moral e ética da qual é revestido. 


ORÍKÌ


Bàbá nlá! Oko Iyemowo
Ibi rere l’órísá ka'le
Òrìsànlá atererekáiye
Òrìsà nlá Adìmúlà
Olójú kará bi ajere
Èwù rè funfun ni
Adàgbà je ìgbìn
Eni oetì!


"Grande pai, marido de Yiemowo
O lugar feliz é onde ele está assentado

Grande Òrìsà que reina sobre todas as coisas
O grande Òrìsà Salvador
Ele tem olhos que vêem tudo
O manto dele é branco
O velho que come caramujo
Um ser nobre e imutável."

(Fonte: Livro "As Águas de Oxalá: Àwon Omi Òsàlá" de José Beniste)




sexta-feira, 18 de novembro de 2011

EBO = SACRIFÍCIO E OFERENDA

(Extraído de Òrun-Àiyé: o encontro de dois mundos: o sistema de relacionamento nagô-yorubá entre o céu e a Terra, de José Beniste, Editora Bertrand Brasil)


 Um ebo (ebó) pode ser definido como um ato de se fazer uma oferenda, do reino animal, vegetal ou mineral, de comidas, bebidas e qualquer objeto, a uma divindade ou entidade espiritual. É um ato mágico-religioso que se utiliza das forças naturais existentes nesses elementos para um determinado fim. Por este motivo costuma-se dizer que o ebo revela-se como a maior fonte de comunicação entre todas as fontes do universo.


A palavra ebo significa sacrifício e vem de bo - alimentar, palavra utilizada somente para òrìsà, coisas e animais, nunca para uma pessoa. Rírú ebo òrìsà significa oferecer sacrifício ao òrìsà. Na língua yoruba, não há diferentes nomes para definir o sacrifício de animais, de plantas, de oferendas ou trabalhos determinados pelo jogo de búzios. Tudo é conhecido por um só nome: ebo


Há uma tendência de se atribuir qualidades parecidas dos humanos às dos òrìsà, a quem as oferendas são feitas. Eles podem tocar, ouvir, sentir nossas emoções; têm apetites, desejos e tabus semelhantes aos seres humanos. Para manter essa comunhão, ofertam-se de forma regular as oferendas sob diversas formas, de acordo com a situação que se almeja.


IMPORTANTE:

TODO ATO MÁGICO RELIGIOSO POSSUI TRÊS ELEMENTOS:
1. A condição de competência daquele que realiza;
2. Palavras a serem proferidas em forma de reza - adúra -, saudações - oriki -, cânticos - orin -, e encantamentos - ofò -;
3. A forma de realizar os trabalhos e os locais adequados.




RELIGIÃO E MAGIA - O ÀSE (AXÉ)

(Extraído de Òrun-Àiyé: o encontro de dois mundos: o sistema de relacionamento nagô-yorubá entre o céu e a Terra, de José Beniste, Editora Bertrand Brasil)

Todo o culto yorubá tem sua significação pela crença nas forças divinas e na capacidade de elas darem o Àse (axé), elemento essencial para a existência da Religião de matriz africana e de tudo que nela existe e venha a existir. A palavra Àse possui três interpretações distintas, mas que se interligam por força do que eles representam:


ÀSE - como palavra, representa o “Que assim seja”, definindo o conceito de que é Deus, O Ser Supremo, somente Ele, que permite a realização de um pedido ou da outorga de algum poder. Ao se dizer Àse ao final de uma oração ou um pedido, a idéia é a de que “Deus é quem irá decidir se o pedido será aceito ou não”, embora a oração seja destinada a um Òrìsà. Nestes casos, o Òrìsà exerce a sua função de intermediário, intercedente junto ao Ser Supremo. Citamos o exemplo de uma invocação, Ìjúbà:


Olójó Òní, mo júbà  
(Senhor deste dia, minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Ìlà oòrùn, mo júbà
(Leste eu rendo minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Ìwò oòrùn, mo júbà 
(Oeste, eu rendo minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Àríwá, mo júbà
(Norte, eu rendo minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Gúúsù, mo júbà
(Sul, eu rendo minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Àkódá, mo júbà
(Ao primeiro ser criado, minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Adá, mo júbà
(Criador dos homens, minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Ilè mo júbà
(Terra, eu rendo minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Èsù Òdàrà, mo júbà
sù Òdàrà, minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Agbagba, mo júbà
(Aos ancestrais, minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)


Sàsàrà, osé, àbèbè
ÀSE - como matéria, representa as forças e o poder de todos os elementos representados por símbolos que se identificam com as divindades: sàsàrà, osé, àbèbè, as folhas (ewé), árvores, cânticos, rezas, e a própria casa de Religião, muito apropriadamente definida como Ilé Àse, Casa do Àse, e sua dirigente definida como Ìyáláse, a Zeladora (Mãe) do Àse.






ÀSE - como fluido mágico que não tem forma mas é sentido, e que dá vida e forma a tudo que existe. Em sua relação de criar e recriar, se desgasta e é preciso ser revivido com preceitos, ervas e cânticos, com rituais diversos que permitirão a relação constante entre o àiyé e o òrun.


O próprio ser humano represente o Àse de Vida, sendo por essa razão a resposta sempre afirmativa, diante da saudação yorubá por excelência, ao se perguntar por uma pessoa:


Sé àlàáfíà ni? - Como vai você?
Àlàáfíà ni, a dúpé. - Vou bem, obrigado.


A palavra àlàáfíà é de origem árabe, e que no hausá é conhecida como lafiya; significa paz, saúde da mente e do corpo. No caso da saudação acima, literalmente significa “Você está em paz com Deus?” A resposta será sempre afirmativa, cujo agradecimento, a dúpé, na 1° pessoa do plural, possui dois sentidos: agradecer à pessoa que está perguntando e a Deus, por estar vivo. Se a pessoa está viva, está com o Àse de Olódùmarè. 


Para que o Àse se produza, é feita uma série de preceitos que se utilizam de símbolos e palavras que expressam o desejo a ser obtido. No culto ao Òrìsà, tanto a religião - èsin - quanto a magia - idán - são empregadas para atingir este objetivo. São tão interligadas que se torna difícil dizer quando uma invade o domínio da outra. Na realidade, uma ìyálórìsà ou qualquer outra pessoa que assume função sacerdotal é uma espécie de cientista, na medida em que procura descobrir (jogo de búzios) e aplicar (ebo) as leis do universo.


Há uma consciência de suas limitações, mas também há é consciente de que existem recursos no universo que podem ser utilizados em seu proveito e no da comunidade; ora apelando ao Ser Supremo por meio de preces, ora idealizando uma forma de captar forças elementares. Não há aí nenhuma forma de coação junto às divindades. O que a magia faz é utilizar os recursos proporcionados pelo Ser Supremo, para uso da humanidade. 



TODO ATO MÁGICO RELIGIOSO POSSUI TRÊS ELEMENTOS:
1. A condição de competência daquele que realiza;
2. Palavras a serem proferidas em forma de reza - adúra -, saudações - oriki -, cânticos - orin -, e encantamentos - ofò -;
3. A forma de realizar os trabalhos e os locais adequados.