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domingo, 20 de fevereiro de 2011

A Divinização de Sàngó

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)
Natural da cidade de Tápà, região fronteiriça ao rio Níger, Sàngó foi produto da aliança desse povo com os habitantes de Ifè, pois nasceu da união de Òránmíyàn e Torosi, filha de Elénpe, rei de Tápà. Retornando mais tarde para a sua região, Òránmíyàn fundou a antiga cidade de Òyó, localizada próxima ao monte Àjàkà.


Sàngó passou a sua infância e juventude em terras Tápà, indo depois para outras cidades, conquistando uma delas, denominada Kòso, e lá assumindo a condição de líder do seu povo como Oba, seu rei. Mas o sonho de Sàngó era assumir o reinado de Òyó, nessa fase tendo como regente Dàda Àjàkà, seu irmão mais velho, que não estava à altura do cargo, por ser passivo e de certa forma indolente. Sàngó invadiu Òyó e destronou o irmão, que se instalou na cidade de Ìsele. Passou a ser o 3° Aláààfin de Òyó, permanecendo no trono durante sete anos, dando motivos a inúmeras histórias onde são reveladas suas façanhas e seus casos de lutas e paixões. Segue uma delas:


Sàngó, como soberano de Òyó, assumiu condições de guerreiro, pois essa fase, na vida do povo yorubá, era dedicada a conquistas, e com isso conseguiu que seu reino se expandisse a ponto de se tornar o soberano legítimo reconhecido por todos. Seus exércitos haviam dominado todos aqueles que lhes eram opositores e, assim, todos os demais reis reconhecem a sua supremacia.


Entre os guerreiros que participavam dos exércitos de Sàngó, dois de destacavam: Tìmì e Gbònkáà Èbìrì, que, por suas ações, eram conhecidos e respeitados por todos. Suas vitórias eram sempre lembradas, e isso passou a incomodar Sàngó, que dizia: “Sou o aláààfin de Òyó, o Oba dos Oba, e, apesar de meus exércitos conquistarem tudo, não é só a mim que o povo elogia.” Refletiu e começou a imaginar uma maneira de se livrar da força que os dois tinham junto ao povo de Ifè.


No dia seguinte, enviou um mensageiro à casa de Tìmì, pedindo o seu comparecimento no palácio. Tìmì atendeu prontamente ao pedido e se fez acompanhar por um tocador de atabaque, cantando poemas em seu louvor. Uma multidão de pessoas o seguiu, algumas delas dançando, pois esta era a forma de como as coisas agiam quando um grande herói de deslocava de um lugar para outro. Sàngó sentia-se agradecido pela lealdade de seu guerreiro nas batalhas, mas o ciúme e a gratidão conflitavam dentro dele. Assistir ao espetáculo das várias pessoas celebrando as grandes ações de Tìmì fez o coração de Sàngó ficar endurecido e, assim, decidir mandar Tìmì embora.


Com esse pensamento, Sàngó falou a Tìmì: “Na cidade de Èdè, as coisas não andam bem. Lá, a população não demonstra o respeito necessário a Òyó. Vá, estabeleça a ordem e oprima aqueles que buscam a desordem. Permaneça lá e seja a autoridade de Èdè.” Tìmì agradeceu a confiança e disse: “Grande Sàngó, eu farei o que me pede. Èdè voltará a ordem e será submissa a Òyó.” Em seguida, foi para casa se preparar para a viagem. Levou seus amuletos no pescoço e nos braços, pegou o arco e as flechas flamejantes que usava nas batalhas e que o faziam tornar-se invencível, montou seu cavalo e, com alguns guerreiros, seguiu para Èdè.


Sàngó pensou: “Agora eu me livrei de um dos heróis que, certamente, encontrará seu fim tentando conquistar Èdè.” Entretanto, notícias começaram a chegar informando que Tìmì e seus companheiros haviam lutado e derrotado os melhores guerreiros, trazendo a ordem à cidade e a todas as regiões fronteiriças. O nome de Tìmì havia se tornado maior do que antes e a cidade de Èdè desenvolveu-se como potência militar poderosa, repercutindo fortemente em Òyó, deixando Sàngó muito aborrecido.


Assim começou a elaborar um grande plano. Mandou chamar o outro herói, Gbònkáà, e instruiu-o da seguinte forma: “Vá até Èdè onde Tìmì governa. Quando ele partiu daqui, prometeu tornar a cidade submissa a Òyó. Em vez disso, ele a fez altiva e vaidosa, como se Òyó fosse uma aldeia sem nenhuma importância. Vá e derrote-o. Traga-o de volta, usando os seus poderes.”


Ouvindo tudo com atenção, Gbònkáà disse que não tinha raiva de Tìmì. E, assim falou a Sàngó: “Grande aláààfin, eu ouço o que quer que eu faça, mas lembre-se de que eu e Tìmì combatemos juntos. A dor de um sempre foi a dor do outro. Quando um de nós se feria, o outro ajudava. Aliviamos a nossa sede no mesmo copo. Como posso lutar contra Tìmì? Um de nós certamente morrerá.” Sàngó respondeu que já havia pensado nisso e elogiou o poder de Gbònkáà, dizendo que ele era muito eficaz e que iria vencer sem causar nenhuma morte. O que Sàngó tinha em mente era a certeza de que, quando dois heróis se encontrassem em combate, certamente um deles morreria, e, assim, ficaria mais fácil para ele enfrentar apenas um.



Gbònkáà respondeu a Sàngó: “Eu irei até Èdè e falarei com Tìmì como se fala com um companheiro de muitas batalhas. Eu o convencerei a retornar.” Dizendo isso, seguiu para a sua casa, carregando consigo seus talismãs. Pegou o seu chifre de antílope, onde em seu interior mantinha um de seus grandes poderes ligados a encantamento. Depois partiu, tendo a sua frente o tocador de atabaques cantando seus feitos e glórias.


Algum tempo depois, o povo de Èdè começou a ouvir os cânticos e os sons do atabaque. Viram com admiração a chegada de Gbònkáà. Ele era forte e violento, e o seu corpo estava quase todo coberto com sacolas de couro contendo a força de seus poderes. Na mão, trazia uma lança e, sob seu escudo, estavam as marcas tradicionais de seus feitos. O povo correu até a casa de Tìmì, gritando que Gbònkáà havia chegado e estava trajando roupas para uma batalha. Tìmì o aguardou na porta de sua casa. Gbònkáà se aproximou e foi dizendo: “Tìmì, meu companheiro de guerra. Sàngó enviou-me até aqui para levá-lo de volta para Òyó. Peço que se prepare para a viagem.” Tìmì respondeu: “Gbònkáà, você, que percorreu comigo muitas regiões, está de volta a Èdè; porém, não posso voltar com você, pois sou agora o Oba desta cidade. Quando Sàngó me mandou para cá, ele não disse para voltar. Portanto, não poderei acompanhá-lo.”


O diálogo estava sendo observado por toda a população, já preocupada com os acontecimentos. E, nesse clima, Gbònkáà respondeu: “Meu amigo, devo lhe dizer que Sàngó me orientou para o caso de que, se você não se decidir a vir, eu deverei levá-lo à força ou lutar para decidir o caso.” Tìmì se surpreendeu: "Gbònkáà, você teria coragem de usar suas armas contra mim? Eu sou seu companheiro e amigo de muitas batalhas." Embora lamentando, Gbònkáà foi irredutível: "Infelizmente terá de ser dessa maneira. Prepare-se, vamos lutar." Tìmì foi se preparar. Cobriu-se com seus preparados e proteção de seus talismãs. Em suas mãos, seu Ofà Iná(n), as flechas flamejantes.


O povo de Èdè suplicava aos seus heróis: "Vocês são como irmãos. Pensem nisso e não lutem!" Mas Tìmì disse: "Afastem-se e não cheguem até nós." Não havendo outra solução, recuaram. Os tocadores de atabaques dos dois heróis começaram a cantar louvores. Tìmì colocou a sua flecha de fogo no arco, em posição de ataque. Gbònkáà, atento, apenas segurou o seu chifre de antílope, onde trazia o seu poder de encantamento. E, enquanto fitava Tìmì, começou a recitar um determinado ofo, reza de encantamento, que terminava com as seguintes palavras:


Ewé ti a ba já lówó òtún
(Folhas apanhadas do lado direito)
Òtún níígbé
(São conservadas na mão direita)
Ewé ti a bá lówó òsì
(Folhas apanhadas do lado esquerdo)
Òsì níígbé
(São conservadas na mão esquerda)
A sùn fonfon ni tígi àjà
(Uma trepadeira fica sempre imóvel)
Ìwo, Tìmì! Sísùn ni kóosùn!
(Você, Tìmì! Fique imóvel, durma, não acorde!)


Imediatamente Tìmì entrou em sono profundo. Suas armas caíram de suas mãos e Gbònkáà aproximou-se dele com sua lança suspensa. Vendo Tìmì imóvel, abaixou-se e pediu ao povo para colocá-lo em cima de um cavalo, levando-o de volta para Òyó. Assim que chegou, foi direto para o palácio de Sàngó e disse: "Nós nos preparamos para a luta, mas antes que ele pudesse atirar sua flecha eu o coloquei para dormir." Sàngó pediu que o acordasse e, quando Tìmì se levantou, o povo começou a ridicularizá-lo com frases e risadas. Gbònkáà dispersou o povo e seguiu calmamente para casa.


Sàngó estava muito aborrecido, pois os dois heróis continuavam em Òyó. Pensou no assunto e mandou chamar Tìmì. "As coisas não estão bem", disse-lhe. "Pensei que você fosse derrotar Gbònkáà, mas deu-se o contrário. Ele o fez dormir com o poder que possui e, agora, o povo zomba de você. Você não pode ficar ouvindo o povo humilhá-lo diariamente. Isso não pode continuar. Se você desejar, anunciarei uma nova luta entre vocês." As palavras tocaram fundo em Tìmì, que estava sufocado pela humilhação. Então, ele falou: "Sim, eu me encontrarei mais uma vez com Gbònkáà, e a morte deverá vir para um de nós." E um novo encontro foi anunciado entre os dois guerreiros. Lutariam até a morte na praça principal de Òyó.


Na manhã seguinte, todos já estavam reunidos conforme o desejo de Sàngó. Os dois guerreiros, face a face, com seus tocadores cantando vitórias. Havia uma grande agitação. Tìmì atirou uma flecha flamejante de seu arco e, no exato momento em que a flecha iniciou sua trajetória, Gbònkáà apontou seu chifre de antílope para o Leste. A flecha então tomou  o rumo do Leste. Tìmì lançou outra flecha flamejante, e Gbònkáà apontou seu talismã para o Oeste. E a flecha mudou de rumo novamente. Novas flechas foram atiradas, mas sempre desviadas pelo poder do talismã de Gbònkáà, contido dentro do chifre de antílope. Em meio a essa ação de defesa, Gbònkáà começou a entoar cânticos de encantamento para imobilizar Tìmì, e foi o que aconteceu. Tìmì caiu no sono, imóvel e em sono profundo. O povo fez alarido e os tocadores cantaram a vitória de Gbònkáà, que, em seguida, despertou Tìmì e se afastou do combate.


O resultado da contenda, mais uma vez, não agradou Sàngó porque ambos os heróis ainda permaneciam vivos. Mandou, então, chamar Gbònkáà e lhe disse: "A árvore foi curvada, mas ainda continua a crescer. Você tem curvado Tìmì, mas ele ainda vive; portanto, você deverá lutar novamente."


Furioso com o que ouvia, Gbònkáà respondeu a Sàngó: "Duas vezes eu lutei contra Tìmì para satisfazê-lo e duas vezes eu o derrotei. Isso não lhe tem agradado. Suponho que você nunca ficará satisfeito enquanto nós dois permanecermos vivos. Muito bem, lutarei a última vez com Tìmì. Depois, a luta será entre mim e você. Um de nós deverá deixar Òyó para sempre."


Desse modo, os dois heróis se defrontaram mais uma vez em combate. A multidão se reuniu novamente e os músicos tocaram seus cânticos. Sàngó sentou-se em uma cadeira no formato de um pilão, colocada sobre ela uma pele de leopardo. Uma nova agitação envolveu todos quando a luta começou. Da mesma forma como antes, Gbònkáà dominou Tìmì com seu encantamento e o fez adormecer. Com a sua espada ele cortou a cabeça de Tìmì e a jogou aos pés de Sàngó, dizendo: "Aqui está a cabeça que tanto querias." Sàngó se levantou bastante irritado e ordenou que seus guardas agarrassem Gbònkáà e o matassem utilizando o fogo.


Armaram uma enorme fogueira, amarraram Gbònkáà com cordas fortes e lançaram às chamas. O povo chegou próximo à fogueira para ver o herói morrer. Mas, para a surpresa de todos, viram-no levantar-se sobre o fogo e fixar os olhos em Sàngó. Quando as cordas que o atavam haviam sido consumidas pelo fogo, ele andou através das chamas sem que elas o queimassem. O povo de Òyó que a tudo assistia, ficou aterrorizado e começou a se dispersar. Somente Sàngó e sua mulher Oya permaneceram no local. Gbònkáà se aproximou de Sàngó, mostrou seu corpo sem uma só queimadura e disse: "Agora, Sàngó, tudo acabou para você em Òyó. Deixe a cidade dentro de cinco dias e nunca mais retorne." Em represália, Sàngó abriu sua boca, e uma enorme chama envolveu Gbònkáà; este, porém, resistiu a ela, não lhe causando qualquer dano. Vendo que nada poderia derrotar Gbònkáà, Sàngó retirou-se, então, para o seu palácio.


Quatro dias haviam se passado, e o povo de Òyó cantava canções de louvor a Gbònkáà, agora seu novo líder. Ao anoitecer do quarto dia, Sàngó demonstrou vontade de deixar Òyó sem luta, num exílio voluntário. Na escuridão da noite, acompanhado de Oya e seus criados fiéis, seguiu viagem em direção à cidade de Tápà, com o intuito de ficar com a mãe. Por sete anos Sàngó havia governado Òyó, dando-lhe grande esplendor de conquistas, e agora se retirava triste e abatido por ver o povo se voltar contra ele em detrimento de Gbònkáà, esquecendo-se de tudo que havia feito para todos.


Pelas florestas seguia a comitiva de Sàngó, que raramente falava. Estavam todos angustiados com os acontecimentos. Em meio à viagem triste e silenciosa, Sàngó começou a perceber a ausência de seus companheiros, a tal ponto que, em certos trechos, constatou que apenas a companheira Oya havia permanecido ao seu lado. Os demais haviam dispersado, tendo alguns voltado para Òyó. Ao deparar com essa situação, Sàngó fitou Oya e lhe disse: "Ko kin burú tìtí ki o ma enìkan mò ni." ("Por pior que alguém seja, há sempre quem goste da gente.")


Dizendo isso, pediu para Oya aguardá-lo no local e se retirou para o interior da floresta. Lá, pegou uma corda e amarrou numa árvore denominada àyàn, enforcando-se. Oya, que estava aguardando e, ao perceber que Sàngó demorava, resolveu ir até o local onde ele poderia estar. E lá o encontrou enforcado. Ficou desesperada e voltou para Òyó, gritando alto que Sàngó havia se suicidado. Os adversários de Sàngó se rejubilaram e fizeram festas pelo acontecido, gritando: "Oba so! Oba so!", que significa "o rei se enforcou". A partir daí, começaram a humilhar e a brigar com os adeptos de Sàngó.


Oya, com mais calma, foi procurar os Mógbà, auxiliares diretos de Sàngó, e com eles retornou à floresta. No local em que deveria estar o corpo de Sàngó nada foi encontrado. Ouviram, porém, a voz dele vinda de dentro da terra, dizendo que se havia transformado em Òrìsà e que deveriam voltar para Òyó, pois todos teriam uma lição de seu poder.


Lá retornando, relataram o que tinham visto e escutado, mas não deram importância e continuaram a festejar o acontecido. Até que, de repente, o céu começou a escurecer acompanhado de fortes ventanias; raios caíam em todas as direções e atingiam as casas da cidade, incendiando-as. Todos se assustaram com o que estava acontecendo, não sabendo explicar as razões da mudança repentina da natureza. A tempestade envolveu Òyó e fez as rochas se deslocarem, destruindo caminhos e causando mortes.


Em meio a todo esse clima, o Bàbáláwo da cidade foi convocado para descobrir a causa de tudo. "É Sàngó", disse ele. "Ele está zangado pela afronta que recebeu de seu povo." Em seguida, pediu que trouxessem oferendas para serem preparadas: aves, carneiro, azeite-de-dendê e orógbó. Seguiram para o local onde se sabia que Sàngó havia morrido e lá depositaram as obrigações. Ao mesmo tempo olharam para o céu e viram o sinal de aceitação de Sàngó, surgindo o seu símbolo de formato similar ao machado de dois gumes e denominado osé iná(n), formado pelos raios que brilhavam no espaço. Então, todos começaram a gritar: "Oba kò so! Oba kò so!" ("O rei não se enforcou!"), que passou a frase que simbolizava a fidelidade a Sàngó e que deveria ser sempre repetida. A partir desse momento, a natureza se acalmou com aquele ato de devoção e submissão.


O local se tornou desde então um santuário popularíssimo de Sàngó, nos arredores da atual Òyó, onde os sucessores dos reis e descendentes de Sàngó são tradicionalmente coroados. A árvore - igi  àyàn- passou a representar o caminho que conduziu Sàngó à divinização como Òrìsà, em cuja base são depositados os sacrifícios e as oferendas. Quanto a Oya, companheira até os últimos momentos de Sàngó, então sozinha, resolveu retornar a Tápà, mais precisamente à cidade de Irá, sua terra de origem, lá desaparecendo no interior da terra, surgindo depois sob o encanto dos ventos predecessores das tempestades, dos raios e trovões. Em sua memória, o povo yorubá associou-a ao rio Níger, dando-lhe o nome de Odò Oya, cujo delta, formado por nove cursos d'água, reverencia seus nove filhos postos no mundo.


CONCLUSÃO:


Sàngó representa o princípio da justiça, é visto como justiceiro de Olódùmarè e cognominado Oba Jàkúta (já: lançar; òkúta: pedras), que seriam os edùn àrá (edùn: machado; àrá: trovão, relâmpago), meteoritos que atingem a Terra. Essas pedras se prestam para os assentamentos de Sàngó nos cultos religiosos.


Seus elementos são o fogo, os raios e os trovões. Apesar de sua natureza violenta, Sàngó possui o poder da fertilidade através das chuvas que se seguem ao som dos trovões, reabastecendo o solo, os lagos e os rios, oferecendo à humanidade uma de suas necessidades básicas.


NOTAS:

  • Òyó: Antigo império yorubá situado na curvatura do rio Níger, ao Norte. Alcançou seu apogeu a ponto de se rivalizar com Ifè. Lá, o culto a Sàngó mereceu uma atenção maior quando se passou a constatar que essa região fica situada na floresta da chuva da Costa da Guiné, que figura como a segunda em todo o mundo em frequência de raios e trovões.
  • Aláààfin: Título dos soberanos de Òyó e que foram os seguintes: 1°- Òránmíyàn; 2°- Àjàkà; 3°- Sàngó, 4°- Àjàkà; e 5°- Aganjú. Como os yorubás costumavam se definir como "Filhos de Odùdúwà", ele costuma encabeçar a lista dos reis de muitas cidades. Como era costume dar primazia a Odùdúwà nas fundações das cidades yorubás, sendo sempre o primeiro soberano, o fato explica a razão de alguns escritores registrarem Sàngó como o 4° rei de Òyó, sendo Odùdúwà o primeiro.
  • Ofò: Recitações de encantamentos.
  • Osé: Símbolo de Sàngó em formato de machado ou chifre de carneiro. Representa seu poder destrutivo. É a representação de dois raios em direções opostas, denotando a condição de que a justiça é cega, sendo a potência do relâmpago comparada à do machado.
  • Dàda: Nome dado às crianças que nascem com um tufo de cabelos em forma de coroa.
  • Èdè: Cidade localizada a Sudoeste de Òsogbo, cujo soberano é  denominado Tìmì Èdè.
  • Odó: O pilão. É um dos símbolos por excelência de Sàngó.
  • Orógbó: Fruto em formato de pêssego com semente em formato liso.
  • Kábíyèsí: Saudação que se faz a um rei ou quando se ouve o som do trovão.
  • Bàbáláwo: Sacerdote responsável pela consulta com o plano divino através de diversos sistemas divinatórios denominados Ifá.
  • Dàda Àjàkà: Filho mais velho de Òránmíyàn. Recuperou o governo de Òyó com a abdicação de Sàngó. Posteriormente, foi sucedido por Aganjú, seu filho.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sàngó, Oya e o poder do fogo


(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)



Sàngó havia conquistado o poder da cidade de Òyó e se tornado o seu terceiro soberano, governando com muita severidade e domínio total sobre seu povo, que não tentava irritá-lo ou ofendê-lo, pois ele era o possuidor do edùn àrá, a pedra do raio.


Seu símbolo de poder é o osé, um machado de lâmina dupla como representação de que “sua força é uma arma de dois gumes”, que equivale dizer que o mais distante habitante de Òyó não estava longe da autoridade de Sàngó ou imune aos seus castigos pelos delitos cometidos. 


Embora consciente de seu poder, Sàngó buscava incessantemente novos meios de se fazer respeitado e temido por todos. Enviava seus mensageiros até os locais mais distantes de seu reino em busca de poções mágicas e amuletos, com o objetivo de aumentar o seu poder. Um a um iam chegando os elementos pedidos sem que satisfizessem os desejos de Sàngó. Decidiu ele, então, pedir a Èsù.



Enviou um de seus homens de confiança para as terras de Ìbàrìbá, onde Èsù se instalara, próximo à região dos Tápà. Lá chegando, o mensageiro declarou: “Oba Jàkúta, o grande Aláààfin de Òyó, enviou-me aqui para que lhe seja preparado um poder eficaz que cause terror no coração de seus inimigos.” Èsù perguntou: “Sim, isto é possível. Mas que tipo de poder Sàngó deseja?” O mensageiro respondeu: “Oba Jàkúta disse que muitos tentaram lhe dar o poder que ainda não tem, mas eles não sabem como fazê-lo. Tais conhecimentos pertencem somente a Èsù. Dê o que precisa que ele saberá o que fazer.”


Disse Èsù: “Sim, do que Sàngó precisa eu sei bem e eu lhe darei. Em troca quero receber uma cabra como sacrifício. O poder estará pronto daqui a sete dias; porém, você, mensageiro, não deverá ser o portador. Quem deverá vir aqui apanhar será a esposa dele, Oya.”


O mensageiro retornou para Òyó e contou a Sàngó o recado de Èsù, que concordou com o que lhe foi dito, e, já no sétimo dia, Sàngó instruiu Oya para ir onde estava Èsù: “Cumprimenta Èsù por mim. Diga-lhe que o sacrifício será enviado. Receba o poder que ele preparou e traga-o para cá rapidamente.” Em seguida, Oya partiu.


Chegando às terras de Èsù, Oya cumprimentou: “Sàngó, de Òyó, enviou-me para apanhar o que foi preparado para ele. O sacrifício que você pediu por isso já está a caminho.” Em seguida, Èsù entregou a Oya um pequeno pacote embrulhado em uma folha silvestre, ewé ògbó, e lhe disse: “Tome cuidado com isto. Veja que Sàngó beba tudo.”


Pegando o pacote, Oya iniciou a jornada de volta. Mas a curiosidade começou a atiçá-la: “O que Èsù fez para Sàngó? Que espécie de poder pode estar neste pacote tão pequeno?” No longo do trajeto de volta, Oya foi pensando no assunto, quando resolveu parar para descansar. Como Èsù havia presumido que ela faria, Oya desembrulhou o pacote para olhar o que havia dentro. E o que viu possuía uma coloração vermelha. Colocou um pouco do poder na boca para testá-lo. Nem era bom, nem era ruim. Ficou pensativa por um instante e depois embrulhou de novo o pacote, seguindo viagem.
Ao chegar a Òyó, foi direto para o palácio de Sàngó. Assim que o viu entregou-lhe o pacote. Sàngó o recebeu e perguntou: “Que instruções Èsù deu a você? Como é que eu        tenho que usar este poder?”


Oya disse: “Ele instruiu para ingerir o poder.” Nem bem começou a falar, faíscas saíram de sua boca. Sàngó entendeu que Oya havia testado o poder que lhe havia sido destinado. Sua ira foi violenta. Levantou a mão para bater-lhe, mas ela escapou do palácio. Sàngó a perseguiu, mas não a encontrou. Oya foi para um lugar onde muitas ovelhas estavam pastando. Correu entre elas, pensando que Sàngó não a encontraria. Mas a ira de Sàngó era terrível. Ele lançou seu grito, estrondos em todas as direções, a ponto de atingir as ovelhas, matando-as todas. Oya escondeu-se, então,  embaixo das ovelhas mortas, conseguindo, assim, iludir Sàngó, que, cansado, retornou ao palácio onde uma multidão o aguardava. Todos suplicavam pela vida de Oya. “Sua compaixão é maior do que a sua ofensa. Perdoai-a.” A ira de Sàngó se atenuou. Ele enviou seus escravos para encontrar Oya e trazê-la de volta. 



Sàngó não sabia, exatamente, como Èsù havia lhe destinado o poder. Assim, quando a noite chegou, Sàngó pegou o pacote com o poder e foi para um lugar alto contemplar a cidade. Lá, colocou um pouco do poder sobre a língua, e, quando expirou o ar, uma enorme chama saiu de sua boca, estendendo-se por toda a cidade. Sàngó passou a ter o poder sobre o fogo, que brotava de sua boca e de suas narinas, e, com isso, passou a intimidar seus adversários.



CONCLUSÃO:


Em tempos de guerra ou quando certos assuntos desagradavam Sàngó, ele lançava seus raios e pedras do espaço, os meteoritos, sempre acompanhados por um clarão brilhante que acompanhava o céu e a terra. O povo dizia: “É o fogo disparado da boca de Sàngó.”


As ovelhas que morreram enquanto protegiam Oya da fúria de Sàngó nunca foram esquecidas. Em sua honra, os filhos de Oya passaram a recusar comer carne de carneiro como lembrança daquele dia.


NOTAS:

  • Iná: É o fogo. Elemento que caracteriza o poder de Sàngó; é lembrado na cor vermelha de suas contas. Pronuncia-se “inan”
  • Edùn àrá: Equivalente aos meteoritos incandescentes. Èdùn: machado; àrá: trovão, raio.
  • Ìbàrìbá: Região constantemente citada nos relatos, habitada por grandes conhecedores da magia natural e da existência de forças que causam e controlam os fenômenos da natureza. Na crença yorubá, a religião e a magia são tão interligadas que se torna difícil dizer quando uma invade o domínio da outra.
  • Ewé: Significa folha ou erva, e vem do verbo wé: embrulhar. Era hábito fazer oferecimentos utilizando-se folhas para embrulhar.



Ìbínu Sàngó: A fúria de Sàngó. Seu temperamento é lembrado em muitos cânticos, como o que segue:


Olómo kìlò fómo re
(Advirta o seu filho)
E má pèé Sàngó gbómo lo
(Para que Sàngó não seja acusado de rapto)
Bí ó soro,
(Quando ele fica feroz)
A so’gi dènìyàn
(Transforma a árvore numa pessoa)
Bí ó soro,
(Quando ele fica feroz)
A sènìyàn deranko.
(Transforma uma pessoa num animal.)


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Por que saudamos Oya dizendo "Èpà Heyi"?

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)


"Èpà Heyi!", é uma forma de saudar e acalmar Oya. 


Sua origem se reporta ao rei Olúgbìjì, uma boa pessoa, mas que se encontrava em meio a uma rebelião. Consultando Ifá, foi informado que, em sua família, existia o culto a um Òrìsà que poderia ajudá-lo. Seu nome era Oya.


Foram-lhe feitas oferendas diversas, procurando sensibilizá-la. Oya aceitou tudo e se propôs a destruir os inimigos do rei. Mas um grupo de pessoas, sabendo de seu temperamento extremamente violento, pediu-lhe calma e lhe disse: "Se você continuar assim, irá destruir todo mundo."


Em face disso, foi-lhe sugerido que comprasse um escravo para assessorá-la e lembrasse às pessoas quando elas estivessem correndo perigo de vida, por infringir suas normas de conduta. Indicaram um escravo cujo o nome era Ehín, que em yorubá significa dente. "Este nome é horrível e vou mudá-lo", disse Oya.


Depois disso, sempre que Oya ficava furiosa, as pessoas passaram a chamar por Heyi, que, a partir daí, tornou-se a sua saudação. Èpà é uma interjeição exclamativa.



Por que Oya tornou-se dona do cemitério

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)


Olófin reinava em Ifè e tinha uma filha chamada Oya, que era desejada por Ìkú, a Morte. Ìkú era muito feio e estava sempre disposto a fazer o mal às pessoas. Seu costume preferido era levar qualquer pessoa para o cemitério, de onde ela nunca regressava. Certo dia ele foi até o palácio de Olófin e revelou seu desejo de casar-se com Oya. Olófin ficou surpreso com o pedido e lhe fez uma proposta: “Está bem, você poderá se casar com Oya, desde que se comprometa a trazer-me cem cabeças de gado.” Esta foi a maneira de se livrar de Ìkú, pois sabia que ele não poderia cumprir o pedido em razão de estar sempre sem dinheiro e nada ter na vida. 


Ìkú, que era, por sua vez, muito esperto, se deu conta de que Olófin, na verdade, não queria lhe entregar Oya, e, então, pensou em fazer uma contraproposta: “Para que queres cem cabeças de gado se posso fazer-lhe uma oferta melhor? Posso lhe trazer um homem que vale mais do que todas as rezes juntas e que irá trabalhar para você o resto da vida.” Olófin lhe perguntou: “E quem é essa pessoa?” Ìkú revelou: “É Àwòrò, o conhecedor de todos os poderes do bem e do mal, os que curam e os que matam.”


Olófin aceitou o que foi proposto por Ìkú, porque sabia que Àwòrò era muito religioso e cumpridor de seus deveres, fazendo tudo que os Òrìsà mandavam. Era homem de poucos amigos, entre eles o Ògá(o mesmo que Ogan), e o Àgbò, o carneiro. Não bebia e nem jogava, e, o mais importante, não tinha nenhuma relação com Ìkú. Olófin não se preocupou, pois sabia que Ìkú não teria como obrigar Àwòrò contra a sua vontade.


Ìkú saiu de lá, pensando em como cumprir com o prometido, quando no caminho avostou Àgbò, o carneiro, vindo em sua direção. Aproveitou a oportunidade, contou-lhe a conversa que havia tido com Olófin e lhe fez uma promessa: “Se me ajudares, eu te asseguro que nunca te levarei para o cemitério, ou seja, nunca morrerás.” Àgbò, apesar de amigo de Àwòrò, aceitou a proposta de Ìkú, mas disse que precisaria da ajuda de Ògá, a quem deveria fazer-lhe a mesma promessa. Isto feito, Ògá se comprometeu a ajuda-lo. Eles iriam levar Àwòrò ao cemitério naquela mesma noite.


Nesse meio-tempo, Oya tomou conhecimento do acordo entre Olófin e Ìkú, e resolveu ir até a casa de Òrúnmìlà, para uma consulta. E ele lhe disse: “Ìkú poderá até conseguir o que deseja, mas a traição dos amigos porá tudo a perder. Você, porém, poderá salva-lo se for ao cemitério e enfrentar Ìkú.” Oya temia Ìkú e, mais ainda, o cemitério, mas decidiu não dizer nada.


Naquele momento, Àwòrò estava em seu trabalho religioso, realizando suas orações, quando foi orientado a não abrir a porta para ninguém depois de se deitar. Por isso, ao chegar em casa fechou as portas mais cedo do que de costume, observando que elas estivessem bem trancadas. Não levou muito tempo, quando ouviu baterem na porta. Recostou-se na cama perguntando quem poderia ser. Ògá se identificou, dizendo que trazia para ele doce de coco, pois sabia que ele gostava muito daquele doce. Mesmo assim Àwòrò disse que não iria abrir a porta, pois já estava deitado. Ògá voltou para Àgbò, perguntando o que fazer. Àgbò pegou o doce de coco e, chegando até a porta, disse: “Àwòrò, somos seus melhores amigos. Se você não pode sair, abra um pouco a porta para que possamos lhe entregar o doce de que tanto gostas.” Àwòrò sentiu um desejo muito forte, e falou consigo mesmo: “O que pode me acontecer se eu abrir um pouquinho a porta?” Desceu e foi abrir a porta, quando o agarraram e se dirigiram ao cemitério.


Era uma noite bem escura, e todos estavam com medo de entrar, mas não viram outro jeito. Não tinham avançado muito, quando diante deles se apresentou Ìkú em sua verdadeira forma: todos os ossos à mostra. Era pura caveira. Ao ver o susto nos olhos dos dois, Ìkú os acalmou e eles se recompuseram. 
Contam que Àwòrò estava ali, mas que, no momento de ser entregue, surgiu entre os dois Oya, em meio a ruídos de raios, coriscos e ventanias. Os três saíram correndo espavoridos. Aproveitando o momento, Oya, para libertar Àwòrò, disse-lhe: “O doce de coco quase lhe custa a cabeça.”


Àgbò, ao sair correndo, passou pelo palácio de Olófin feito um bólido. Olófin veio vê-lo passar, suspeitando que algo de anormal estava acontecendo. Chamou seus guardas e pediu que trouxessem Àgbò. Isto feito, exigiu que contasse o que havia acontecido. Quando Àgbò acabou de contar, Olófin mandou buscar Ìkú, Àwòrò, Ògá e Oya. Ao te-los todos à sua frente, falou-lhes: “Ìkú, com a sua  maneira habitual de conseguir as coisas, o que de outra forma teria sido impossível, eu te condeno a que, de hoje em diante, não tenha amigos, nem bens, nem casa, nem nada. Que nunca sejas bem-vindo em nenhum lugar. Que vagues por todas as partes, por toda a eternidade em sua forma verdadeira.”


Olófin continuou em seu julgamento: “Àgbò, tu traíste o teu melhor amigo por querer a vida eterna; irás morrer quantas vezes um Òrìsà necessitar de ti. Quanto a Ògá, tu és culpado do mesmo delito; portanto serás condenado a que não descanses nunca e terás que estar à frente em todos os trabalhos que surgirem e sempre que for solicitada a tua presença. A ti, Àwòrò, eu não direi nada, pois o susto que passou por não obedeceres ao que os Òrìsà te determinaram já é o suficiente.”


E, por último, Olófin se dirigiu a Oya: “Tu salvaste a vida de Àwòrò e demonstraste a falsidade de dois amigos, mas sobretudo perdeste o medo de Ìkú. De hoje em diante serás a dona do cemitério e de tudo o que estiver dentro dele. Ìkú, que quis fazer-te mulher dele, de agora em diante será teu escravo e trabalhará para ti eternamente.” Dizendo isso, retirou-se satisfeito, certo de ter feito justiça.


NOTAS:

  • Olófin: Título que indica a função de um legislador e que vem de Oní, prefixo que indica posse ou comando, e Òfin, que significa lei. Oní + Òfin = Olófin. É um título dado a Olódùmarè, o Ser Supremo, como o Senhor das Leis Universais e, em outros casos, a Odùdúwà, como soberano de Ifè.
  • Ògá: Significa: senhor ou mestre na sociedade Yorubá. No Brasil, a grafia foi modificada para Ogan, um cargo masculino nas casas de Candomblé, também chamado de Pai e merecedor de todas as distinções. 
  • Ìkú: A morte. Na cultura yorubá é vista como personagem masculino.
  • Oya: Também conhecida como Yánsàn, princesa do reino de Irá. Òrìsà de características guerreiras idênticas às de Sàngó.
  • Àwòrò: é denominação usada para um sacerdote; literalmente, à: aquele, wò: que olha, orò: pelo ritual.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Èsù e a divisão dos búzios entre Oya, Òsun e Yemoja

(Extraído do livro"Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento", de José Beniste, com adaptações.)



Certo dia, Oya, Òsun e Yemoja resolveram ir juntas ao Oj๠de Òyó fazer compras. Lá chegando, tomaram conhecimento das novidades trazidas pelos mercadores, como tecidos, contas e especiarias diversas.


Nesse instante, Èsù chega no mercado trazendo uma cabra. Ele pára e observa de longe as três mulheres conversando animadamente, e resolve fazer uma prova entre elas, o que constitui uma de suas características. Aproxima-se de Oya, Òsun e Yemoja, dizendo: "Eu vou deixar a cidade para um importante negócio com meu amigo Òrunmìlà. Assim, eu lhes peço que vendam minha cabra, e em troca eu darei a vocês metade do que for apurado. Como o preço são vinte búzios², eu darei dez para vocês e dez ficarão para mim." Elas aceitaram e Èsù partiu. Logo a cabra foi vendida por vinte búzios. Elas separaram dez búzios para Èsù e começaram a dividir os dez restantes entre elas.


Yemoja iniciou a divisão. Ficaram três búzios para cada uma delas, mas sobrou um. Oya, então, tomou a iniciativa. Fez três pilhas e em cada uma colocou três búzios, porém da mesma forma sobrou um. Depois disto foi a vez de Òsun, mas continuava sobrando um. E as três começaram a discutir acerca de quem poderia pegar a porção maior.


Yemoja dizia: "É justo que a mais velha deva pegar a porção maior. Portanto, eu ficarei com o búzio extra."


Òsun replicou: "Não, onde eu nasci, nas terras de Òsogbo, diz-se que o mais novo é sempre tratado com mais generosidade. Assim, o búzio extra deverá ser meu."


Até que Oya tomou a palavra: "O assunto está em disputa. Tem-se dito que, nesses casos de disputas entre os mais velhos com os mais novos, a maior porção deverá ir para aquele que está entre os dois lados. Em Irá, de onde eu vim, é assim que se faz. Portanto, o búzio que está sobrando deve ser meu."


E a discussão se acentuou. Como não conseguiram chegar a uma conclusão, pediram a um homem do mercado fazer a divisão. Ele disse: "Como pode o dez ser dividido em três partes iguais? Sempre sobra um. Quem merece ficar com ele? De acordo com o que eu tenho ouvido, é a pessoa mais velha quem merece ficar com ele, porque é a mais antiga no mundo e, consequentemente, a que tem sofrido mais do que as outras. A minha conclusão é de que o búzio deve ser dado à pessoa mais velha dentre vocês." Oya e Òsun rejeitaram seus conselhos e recusaram dar a Yemoja a parte maior.


Outra pessoa foi convidada a fazer a divisão dos búzios. Começou a contá-los e disse: "Não existe maneira de fazer esta divisão. Sempre sobrará um búzio. Quem deve ficar com ele? Penso que, numa situação desta natureza, a pessoa mais nova é que deve ser a favorecida, porque os jovens estão no mundo há pouco tempo e têm recebido menos benefícios que os outros. Os mais novos são empurrados de lado nos grandes movimentos, os caçadores jovens andam sempre atrás, e as esposas mais jovens têm a vida mais árdua. Por isso, quando surge uma divisão desigual, a pessoa mais jovem merece a vantagem." Yemoja e Oya não concordaram. Disseram: "Nós nunca ouvimos tal afirmativa. Não podemos aceitar isso.


Um outro homem foi chamado entre aqueles que estavam no mercado. Contou os búzios, separou três a três, deixando o último búzio à parte, e falou: "Diz-se que a pessoa mais velha deve pegar a porção extra, enquanto outros dizem que é a mais jovem que deve receber a porção maior. Assim, creio que nem para a mais velha, nem para a mais nova, mas sim para aquela que estiver entre as duas. Oya é mais velha que Òsun e mais nova que Yemoja. Deste modo ela apresenta as condições ideais. Dêem a ela o búzio extra." Mas Yemoja e Òsun não aceitaram seus conselhos e recusaram dar o búzio para Oya, continuando a divisão sem solução, até que a discussão entre todos se tornou mais acirrada.


Neste instante chegou Èsù. Aproximou-se das três e perguntou onde estava a parte dele da venda da cabra. Elas lhe entregaram os dez búzios e, ao mesmo tempo, pediram o seu conselho para a divisão entre elas, em partes iguais.


Èsù ficou alguns instantes pensativo e, depois, tomou em suas mãos os dez búzios, separou três e deu a Yemoja, mais três e entregou a Oya, e os outros três deu para Òsun. Ficando com o décimo búzio em sua mão, Èsù se ajoelhou e fez um pequeno buraco no chão, colocando nele o búzio. Depois o cobriu com a terra e disse: "Este búzio é para os Ancestrais, os Onílè³. No òrun era assim que fazíamos. Sempre que alguém recebia algo bom, devia se lembrar daqueles que o haviam antecedido. Quando as colheitas são trazidas dos campos, a primeira divisão deve ser dada sempre para os Ancestrais. Quando se realiza uma festa, uma porção deve ser separada para os Ancestrais. Assim também com o dinheiro. Quando ele vem até nós, devemos dar parte aos Ancestrais. Esta é a maneira que fazíamos no òrun e que deveria ser feita também aqui na terra. Vocês deveriam ter-se lembrado disto em vez de disputar o búzio que sobrava da divisão."


Yemoja, Oya e Òsun ouviram atentamente o que Èsù acabara de dizer e admitiram que ele estava certo, concordando, cada uma, em aceitar os três búzios. Por causa do que aconteceu no mercado de Òyó, o povo, daquele dia em diante, passou a dar uma parte para os Ancestrais todas as vezes que faziam as colheitas novas ou recebia fortunas inesperadas.


1- Ojà: Mercado. É o ponto de encontro entre as comunidades e bastante citado nos textos de Ifá. Èsù é visto como Olójà, o Dono do Mercado.
2- Búzios eram utilizados como moedas.
3- Onílè: Os Senhores da Terra, conforme a crença de que o solo é a morada das divindades.