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Ìyálórìsà responsável pelo Ilê Ìyába Àse Òsun Doko, de Nação Ijexá, localizado na cidade de Gravataí-RS; filha de Pai Pedro de Oxum Docô. Contatos fone:(51) 9114-2964 ou e-mail fernanda__paixao@hotmail.com
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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Os Orixás adquirem seus poderes


Numerosos Òrìsà estavam vivendo na Terra recém-criada por Olórun, mas ainda sem terem todos os poderes pelos quais são conhecidos atualmente. Sempre que havia necessidade de o povo fazer coisas importantes e com segurança, rogavam a Olórun ou a Òrúnmìlà, E isso estava desagradando aos Òrìsà.

Certo dia, Òrìsà Oko, conversando com Òsóòsì, disse: "Aqui estamos morando entre os seres humanos. Somos distinguidos? Se o povo necessita de alguma coisa, vai pedir a Òrúnmìlá. Se tivéssemos o conhecimento de algum poder, o povo não iria importunar constantemente Òrúnmìlà." Dizendo isso, resolveu ir falar diretamente com Òrúnmìlà:

"Eu não tenho poderes que me fazem sobressair entre os seres humanos criados por Obàtálá. Você, Òrúnmìlà, que tem acesso direto a Olórun, poderia dotar-me de algum atributo especial. Assim, o povo da Terra viria a mim rogar por socorro em seus momentos de aflição." Òrúnmìlà ouviu atentamente o pedido feito e disse: "Sim, talvez tenha razão nisto. Vou analisar o assunto." Òrìsà Oko partiu e Òrúnmìlà seguiu seu caminho.

Mais adiante encontrou Ògún, que lhe perguntou: "Eu não sou um Òrìsà? Também devo ter poderes. Todas as vezes que alguma coisa importante é pedida pelo povo, este vem procurá-lo. É Òrúnmìlà isso, Òrúnmìlà aquilo. Dê-me um conhecimento especial, de modo que eu possa fazer algo para manter o mundo funcionando." Òrúnmìlà respondeu: "Sim, tenho estado pensando acerca disto. Verei o que posso fazer."

E, assim, seguiu seu caminho, encontrando outros Òrìsà. Èsù, que já tinha conhecimento da linguagem, foi até Òrúnmìlà buscar mais conhecimentos. Sàngó também o procurou; Òsányín foi até ele e, depois deles, outros mais também, todos perguntando e pedindo um poder especial. 
Òrúnmìlà estava angustiado. Pensou: "Tenho por todos os Òrìsà a mesma afeição. Se eu der alguma coisa para um deles, os outros certamente irão queixar-se. Tenho muitos poderes para serem divididos. Para quem eu deveria dar este ou aquele poder?" Por causa do assunto surgido, Òrúnmìlà tornou-se arredio, não tocava em nenhum alimento e mal conseguia dormir à noite. 

Os dias foram se seguindo e Òrúnmìlà tomava rumo pelos campos, pensativo e analisando a questão de como poderia dividir os poderes entre os Òrìsà sem criar problemas entre eles. E estava pensando nisso quando encontrou Agemo, o camaleão. "Você, Òrúnmìlà, o porta-voz de Olórun sobre a Terra, por que está tão deprimido?" Òrúnmìlà respondeu: "Um por um, os Òrìsà vêm até mim pedir para que eu lhes dê um poder especial, de modo que eu possa aliviar o meu trabalho neste sentido. De fato, estou sobrecarregado de atendimentos e isto seria para mim uma forma de suavizar o meu trabalho. Mas existem tantos poderes, alguns grandes, outros pequenos. Se eu der alguma coisa grande para um, os outros ficarão magoados. Quero tratar todos os Òrìsà com igualdade. Como posso fazer isso de maneira que haja harmonia em vez de discórdia?"

Ouvindo tudo, por algum momento, Agemo pensou e disse: "Talvez seja melhor deixar a distribuição dos poderes à sorte. Volte para o Òrun e depois envie uma mensagem para anunciar que, num determinado dia, você derramará os poderes sobre a Terra. Deixe cada Òrìsà agarrar o que puder. Qualquer poder que um Òrìsà pegar desta forma será dele, então." E concluiu: "Enviando a mensagem você terá dado a notícia, e nenhum Òrìsà poderá dizer que Òrúnmìlà o abandonou."

Diante do que ouviu, Òrúnmìlà relaxou da tensão a que estava sendo submetido, por perceber sabedoria naquelas palavras, assim como a solução para as suas dúvidas. Então, disse: "Agemo, embora você seja pequeno, seu nome será grande. Farei exatamente o que me diz." Em seguida, retornou ao Òrun a fim de preparar a distribuição dos poderes. E enviou a seguinte mensagem na direção da morada de cada Òrìsà: "No quinto dia após este, vocês deverão se dirigir ao campo livre de Ilé Ifè. Os poderes serão espalhados do alto e todos deverão agarrar o que puderem. Dessa forma, tudo irá depender de cada um." Todos os Òrìsà concordaram, agradecidos, enaltecendo a sabedoria de Òrúnmìlà na distribuição dos poderes. 

No quinto dia os Òrìsà seguiram para o local determinado e aguardaram. Do alto começaram a surgir sons estranhos acompanhados pelo movimento agitado da brisa que pairava sobre todos. Foi nesse instante que os poderes começaram a cair do Òrun. E todos começaram a correr para aqui e acolá com as mãos estendidas. Enquanto um agarrava um poder, outro pegava o que podia. Alguns poderes escapavam de suas mãos e caíam na relva ou sobre as árvores. 

A correria era grande, com os Òrìsà procurando em todas as direções. Uns eram mais rápidos que outros.  Os mais ágeis e enérgicos conseguiram pegar maior número de poderes. Mas todos receberam alguma coisa.


Èsù foi dos mais persistentes, e não exitou em empurrar quem estivesse por perto; por causa disso pegou grande parte dos poderes, entre eles o de ser guardião do Àse de Olódùmarè e o transportador das oferendas votivas. Em face disso, os Òrìsà e os seres humanos, dali em diante, passaram a tratá-lo com respeito especial e procuraram evitar tornar-se seu inimigo. 

Sàngó, através do que conseguiu apanhar, tornou-se o dono da pedra, do relâmpago, adquirindo o título de Jàkúta, o arremessador de pedras. Mais tarde, quando assumiu o reino de Òyó, veio a ser denominado Oba Jàkúta.

Sànpònná veio a ser o senhor das doenças, em especial a varíola; Òsányin adquiriu o conhecimento do uso litúrgico e medicinal das plantas; Òrìsà Oko tornou-se o senhor da fartura das colheitas; Ògún ficou com o poder do uso dos metais. 

Assim, cada Òrìsà recebeu a sua parte dos poderes do Òrun, como forma de beneficiar os seres humanos através de pedidos e invocações.

CONCLUSÃO:
A busca de poderes pelos Òrìsà lembra que todos os seres são portadores de poderes e que todos esses poderes são dados pelo Ser Supremo. Não se admite a passividade com o intuito de aguardar que o sucesso e as coisas boas da vida caiam nas mãos sem esforço algum. É preciso operar nesse sentido, com ações que objetivem despertar todos os poderes existentes no ser humano.

NOTA:
Òrìsà Oko: divindade tutelar da agricultura e da fertilidade da terra.

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Como surgiu a consulta a Ifá



Este mito fala sobre o retorno de Òrúnmìlà para o òrun, ficando os ikin¹ como seus representantes na Terra. Tem início num determinado tempo, quando Òrúnmìlà ainda não possuía filhos e seus oponentes o recriminavam: “Bàbá ò ní bi omo ni Ifè.” [“O pai que não tem filhos em Ifè.”]. Mas estavam enganados, pois mais tarde ele veio a ter oito filhos que se tornariam reis em várias cidades yorubás.


O primeiro filho foi denominado Alárá, o rei da cidade de Ará; o segundo foi Ajerò, rei de Ìjerò; o terceiro, Olóyémoyin, rei da cidade de Oyé; o quarto, Alákegi; o quinto, Óntangi-òlélé, rei de Ìtagi; Eléjèmòpé, de Ìjèlú; Owaràngún-àga, título de sacerdotes de Ifá; e Olówó, rei de Òwò.


Òrúnmìlà sentiu-se realizado, e, por ocasião de uma grande solenidade, quando celebrava um ritual, mandou chamar seus filhos. Atendendo ao chamado, todos prestaram obediência ao pai, saudando-o com a expressão “Àborúboyè bo síse.” [“Que os rituais sejam abençoados e aceitos" ou "Que o sacrifício seja abençoado e aceito.”]. Apenas Olówó se recusou a saudar Òrúnmìlà. Além disso, ele estava todo vestido de forma idêntica ao pai, o que significava uma afronta e desrespeito à autoridade paterna. 


Òrúnmìlà exigiu que ele dissesse as mesmas palavras dos irmãos, mas ele se recusou, permanecendo de pé e dizendo:
“Òrúnmìlà, você se veste com a roupa òdùn², eu me visto com a mesma roupa; você empunha o òsùn³ feito de bronze, também tenho o meu cajado de bronze; suas sandálias são de bronze, as minhas também são; você usa uma coroa, e eu também. Assim, uma cabeça coroada não se curva para outra cabeça coroada.”


Diante do que estava vendo - uma total afronta à sua autoridade-, Òrúnmìlà se enfureceu e arrancou o òsùn das mãos de Olówó, o que significava cassação de sua autoridade. Mas não ficou apenas nisso. O fato levou Òrúnmìlà a se retirar do plano terrestre e retornar ao òrun. O resultado foi a fome, a peste, as doenças, a esterilidade, pois Òrúnmìlà representava o princípio da ordem, da sabedoria, da fertilidade. Sua partida levou a Terra a um colapso, ameaçando a extinção humana.


Os habitantes da Terra se viram clamando pela sua volta. Os rios secaram, os doentes continuaram enfermos, as espigas de milho brotavam mas não amadureciam. Sacrifícios foram feitos, mas sem resultado algum. 


Pediram que os filhos intercedessem pelo seu retorno a fim de restaurar a ordem das coisas.


Diante disso, os filhos foram até o òrun para pedir que o pai voltasse. Rogaram e recitaram preces de louvores. Mas o pai, mesmo com a decisão já tomada, ordenou-lhes que estendessem as mãos para a frente e deu-lhes os 16 ikin, os coquinhos sagrados de Ifá, dizendo-lhes: “Quando chegarem em casa, se desejarem possuir dinheiro, serão esses ikin que deverão consultar; se desejarem esposas e filhos, serão esses ikin que deverão consultar.”


Fazendo um determinado ritual, Òrúnmìlà reassumiu sua autoridade, colocando-se como a ligação entre o òrun e o àiyé. Deixou de herança aos seus filhos e discípulos o sistema oracular que permite invocá-lo em todos os momentos necessários.

NOTAS:
  1. Ikin: Coquinhos da palmeira do dendezeiro.
  2.  Òdùn: Um tipo de traje yorubá com detalhes feitos em palha-da-costa.
  3. Òsùn: Um bastão sagrado utilizado apenas pelos Bàbáláwo, símbolo de uma divindade conhecida pelo mesmo nome. É usado como um cajado e sempre posicionado ereto e colocado de pé apoiado numa parede.
Fonte:  Livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento", de José Beniste

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A designação do título de Òrìsà nlá

Òrúnmìlà

O universo divino de Olódùmarè foi constituído de seres primordiais; entre eles, os mais antigos: Obàtálá e Òrúnmìlà. Com a criação do novo mundo, decidem ambos instalar-se em uma das regiões da Terra. Òrúnmìlà leva todo o seu material divinatório para Òkè Ìgètí e ali passa a dar assistência àqueles que o procuram, desempenhando as funções designadas pelo Ser Supremo - a de atendimento e orientações sobre o plano de vida estabelecido. Quanto a Obàtálá, ele toma o caminho para as terras de Abéòkúta.


Obàtálá
No começo de tudo, quando Obàtálá criou a Terra e todos os seus atributos, ele fez a distribuição de todas as partes para todo o povo nelas viver suas vidas, cabendo para si a região mais árida e coberta de pedras, pois não queria privilégios. Então, em Abéòkúta, ergue a sua fazenda cujo terreno era mais rochedo do que solo fértil para plantação. Apesar de toda adversidade, suas terras eram as que mais produziam colheitas de todos os tipos. E o povo comentava: “Como podem as colheitas terem crescido em tal lugar?” Enquanto todos tinham trabalho árduo pela manhã até a noite, a produção da terra não se comparaca com a produção das terras de Obàtálá. Apesar de pouco trabalho, suas terras estavam sempre verdes, chovesse ou não; nunca havia falta do grão de milho ou de inhame.


O povo passou a comentar o fato, sentindo-se ofendido. Dizia: “Que espécie de pessoa é Obàtálá? Nossa parte da terra, melhor que a dele, não nos proporciona fartura para nos tornar ricos.” com esse pensamento cada vez mais tomando conta da cabeça de todos, passaram a cobiçar as terras dele. Com isso, arquitetaram planos para tomar suas terras. Esqueciam quem era Obàtálá e o que ele havia feito por todos. Passaram a observar seus passos e ficaram sabendo que ele estava interessado em contratar um ajudante. 


Era por isso que Obàtálá havia sido visto no mercado de Emùré! Adquiriu um escravo cujo nome era Àtowódá, que demonstrou ser muito prestativo no início, trazendo-lhe muita satisfação. Após algum tempo, o escravo pediu a Obàtálá um pedaço de terra para o seu cultivo. De bom grado lhe foi dado um pedaço de terra ao lado de uma montanha situada não muito longe da casa de Obàtálá. 


Em poucos dias, Àtowódá limpou tudo, transformando-o numa pequena fazenda, e ali construiu uma cabana. Isso impressionou muito Obàtálá, que depositou nele toda a sua confiança.


Àtowódá, porém, não tinha bons propósitos. Seu desejo, na verdade, era destruir Obàtálá e, com essa finalidade, vinha ordenando seu tempo, pensando no melhor modo de levar a cabo seu objetivo. E logo encontrou um jeito. Observou que, no caminho íngreme que levava até a sua cabana, havia pedras grandes encaixadas no solo e que soltando o solo abaixo dessas pedras poderia facilmente causar o seu rolamento montanha abaixo para esmagar Obàtálá a qualquer momento que subisse o caminho para fazer uma visita à sua fazenda. Então, selecionou cuidadosamente a pedra, de forma que, com um pequeno empurrão, ela pudesse rolar montanha abaixo para atingir Obàtálá.


Alguns dias mais tarde, Obàtálá seguia em sua caminhada habitual em visita às suas terras. Do topo da montanha, Àtowódá o espreitava. A habitual roupa branca de Obàtálá destacava-o do fundo verde de suas plantações. Quando Àtowódá se certificou de que não haveria chance para Obàtálá evitar que a pedra o atingisse, deu um empurrão na maior de todas. A pedra saiu rolando e se dirigiu a toda a velocidade para onde se encontrava Obàtálá, o qual, paralisado pela surpresa, não conseguiu escapar: foi atingido em cheio, e seu corpo, partido em muitos pedaços.




A notícia se espalhou por todos os lugares. Obàtálá havia sido destruído por homens invejosos. Èsù foi um dos que tomaram conhecimento da notícia e seguiu rápido para o local afim de verificar o ocorrido, seguindo depois para o òrun, com o intuito de relatar a tragédia a Olódùmarè. Este designou Òrúnmìlà para encontrar as partes do corpo de Obàtálá e trazê-las de volta. Òrúnmìlà seguiu imediatamente para o local, e, após um certo espaço de tempo perdido em lamentar o fato, executou um ritual que tornava possível a ele localizar todos os pedaços do corpo espalhados. Ele os recolheu num grande igbá e os levou para Irànje, antiga cidade de Obàtálá. Lá depositou uma porção dos pedaços que possibilitava fazê-lo renascer no òrun. O restante das partes do corpo, ele espalhou por “todo o mundo”, fazendo com que fossem surgindo novas divindades denominadas então de Òrìsà, daí a contração da frase “Ohun ti a ri sà”, que significa “o que foi achado e juntado”, alusão ao fato do recolhimento dos pedaços do corpo de Obàtálá.


Como as outras divindades surgidas do corpo de Obàtálá passaram a ter nomes derivados do dele, tornou-se necessário destacar o seu nome como Òrìsà nlá - O Grande Òrìsà -, que representa a soma de todos os Òrìsà juntos.


CONCLUSÃO:
Nos primórdios do mundo nagô, deu-se a oportunidade de uma convivência pacífica entre os seres humanos e as divindades. São dessa fase as inúmeras histórias relacionadas com os Òrìsà. Neste mito há a sugestão de que Òrìsà era originalmente uma unidade e que o processo de fragmentação transformara uma mesma divindade em várias outras. Revela, ainda, o arquétipo das pessoas identificadas com este Òrìsà: são pessoas constantemente iludidas em sua confiança. Embora portadoras de propósitos criadores e de grande bom-senso, têm a tendência de serem vítimas de inveja e falta de reconhecimento da obra que realizam.


NOTAS:

  • Òkè Ìgèti: Local montanhoso onde se presume que Òrúnmìlà tenha vivido, conforme alguns relatos da literatura de Ifá.
  • Abéòkúta: Cidade yorubá onde é mantido o culto a Yemoja, que é reverenciada no rio Ògùn, que corta toda a região. Abé - embaixo; òkúta - pedras.
  • Igbá: Fruto da cabaceira (Curcubita lagenaria) utilizado como recipiente e utensílio diversos, de acordo com a forma apresentada: akèrègbè - cabaça inteira; igbá - cortada ao meio; ahá - formato de copo; ìgbájè - em forma de prato.


(Extraído do Livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento", de José Beniste)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Criação da Terra por Òsàlà

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)

O que é agora nossa terra foi, certa vez, uma aguacenta e pantanosa imensidão. Acima havia o éter, o espaço celestial, denominado òrun e que era a morada de Olódùmarè, o Ser Supremo, dos Òrìsà e de outros seres primordiais. A aguacenta imensidão constituía, de certa forma, o local de caça para seus habitantes, que costumavam descer por cordas de teias de aranha formando pontes pelas quais andavam.


Conviviam com Olódùmarè vários Òrìsà; entre eles, Obàtálá (também conhecido por Òsàlá), Òrúnmìlà, Èsù, Ògùn e mais Agemo, o camaleão, criado de confiança do Ser Supremo. Na parte de baixo vivia Olókun, a divindade feminina que governava a vasta expansão de água e os pântanos selvagens.


Certa vez, Obàtálá, observando essa região disse: “Todo esse espaço não tem a marca de nenhuma inspiração ou coisa viva. Tudo é muito monótono.” Em seguida, foi até Olódùmarè e expôs seu pensamento: “O lugar governado por Olókun é uma mistura de mar, pântano e nevoeiro. Se existisse terra sólida naquele lugar - campos, florestas, morros e vales -, seguramente ele poderia ser habitado pelos Òrìsà e por outras formas vivas.” Olódùmarè respondeu: “Sim, seria uma boa idéia cobrir as águas com terra. Mas trata-se de um empreendimento ambicioso! Quem faria esse trabalho?” Obàtálá respondeu: “Eu tentarei e farei de tudo conforme o Seu desejo.”


Com a devida permissão, Obàtálá saiu à procura de Òrúnmìlà, que entendia dos segredos da existência, e dele recebeu instruções de como efetuar aquela tarefa. “Estas são as coisas que você deve levar: uma concha cheia de terra, uma galinha branca de cinco dedos em cada pé e um pombo.” Tudo providenciado, Obàtálá desceu através de grossas teias e, antes de chegar ao seu final, despejou o conteúdo da concha e, em seguida, lançou a ave encantada, que passou a espalhar a terra por todas as direções, com o pombo transportando todo o material de um lado para o outro. A terra que estava sendo espalhada foi tomando formas desiguais, originando morros e vales. Quando tudo havia sido feito, Obàtálá saltou da teia para a terra firme, pisou-a e a sentiu segura e firme, mas ainda estéril.


Obàtálá chamou o lugar de onde o trabalho havia sido efetuado de Ifè, que significa “aquilo que é amplo”. De acordo com a tradição, foi assim que Ifè, a cidade sagrada desse povo, obteve seu nome. A criação da Terra foi completada em quatro dias; o quinto foi separado para se reverenciar Olódùmarè, que, mais tarde, desejando saber como andavam as coisas na Terra, enviou Agemo para fazer uma inspeção em toda a região. Ao chegar lá, andou cuidadosamente para experimentar a terra. Achando-a firme, procurou Obàtálá e lhe disse: “Como você pode ver, a Terra está criada, mas ainda falta muita coisa - planta, árvores e gente - para habitá-la. E, mais ainda, há muita escuridão. A terra deve ser iluminada.”


Agemo retornou para o òrun e descreveu para Olódùmarè o que tinha visto e ouvido. Prontamente o desejo de Obàtálá foi atendido com a criação do Sol. Depois disso, surgiram o calor e a luz, no lugar que havia sido domínio exclusivo de Olókun. Em seguida, Olódùmarè enviou Òrúnmìlà para agir como conselheiro de Obàtálá, que levou consigo a primeira palmeira de dendezeiro, o igi òpe, para ser plantada. Deu também três outras árvores para serem plantadas - Iré, Awùn e Dòdo - que serviriam para extrair alimentos e agasalhos. Como não havia bastante água para ser usada, fez cair chuva sobre a Terra. Com todos os elementos em seu poder, Obàtálá completou a tarefa, equipando a Terra com matas, florestas, rios e cachoeiras. 


Logo depois foi designado para outro trabalho, o de modelar a imagem física daqueles que deveriam habitar toda a Terra criada. Para isso revolveu o barro e o umedeceu com a água das fontes, modelando, na forma determinada por Olódùmarè, figuras idênticas aos seres humanos. Obàtálá trabalhou sem descanso, vindo a ficar esgotado e com muita sede. Buscou socorrer-se com vinho de palma, o emu. Assim sendo, foi buscar entre as palmeiras do dendezeiro, o líquido para aliviar a sua sede. Ao extrair o líquido, deixou-o fermentar e depois bebeu-o por longo tempo, até que sentiu seu corpo amolecer e tudo à sua volta girar. Ao conseguir manter-se de pé, voltou ao trabalho, mas sem as condições iniciais. Com isso, vários modelos das figuras ficaram desajeitados, disformes, com pernas e braços tortos. Outros apresentavam as costas altas, cabeça desproporcional e estatura irregular, idênticos a anões. Mesmo assim, todos foram colocados em posição apropriada, aguardando a presença do Ser Supremo para dar vida a todas essas figuras inanimadas. 


A instrução dada a Obàtálá, portanto, era a de que, quando tivesse completado a sua parte na criação do Homem, avisasse Olódùmarè, que então viria para das vida, colocando o emìí em seu corpo, completando, assim, a criação do ser humano. De meras figuras de barro moldado, transformaram-se em seres de sangue, nervos e carne. Com a vida insuflada em suas narinas, começaram a andar e a fazer as coisas necessárias à sua sobrevivência. 


Quando cessou o efeito do vinho de palma, Obàtálá viu que alguns seres humanos que havia moldado estavam deformados. Ficou triste e sentiu remorso. Então disse: “Nunca mais beberei vinho de palma. Serei sempre o protetor de todos os humanos defeituosos ou que tenham sido criados imperfeitos.” Por causa dessa promessa, os seres humanos coxos, cegos, sem braços, surdos, mudos e aqueles que não têm pigmentos em suas peles, os albinos, são chamados de Eni Òrìsà, pessoas especiais sob a sua proteção. 



Todos viviam uma vida pacífica em torno de Obàtálá, que era o seu rei e orientador. Mesmo sem as ferramentas adequadas, pois ainda não existia o ferro no mundo, o povo plantava e semeava. As árvores se multiplicavam, e o povo crescia juntamente com a cidade de Ifè, seguindo tudo conforme a sua determinação. Assim, Obàtálá decidiu voltar ao òrun, tendo sido preparada uma grande festa para a sua chegada. Ali, junto aos demais Òrìsà, ele relatou as coisas existentes no novo mundo e todos se mostraram decididos a viver com os seres humanos criados. Desse modo, muitos Òrìsà partiram para a Terra, mas não sem antes ouvir as instruções de Olódùmarè quanto às obrigações de cada um. Deixou a seguinte mensagem para todos: 


“Quando vocês se fixarem na Terra, nunca se esqueçam de seus deveres para com os seres humanos. Todas as vezes que eles tiverem suplicando por ajuda, observem com atenção o que estão pedindo. Vocês serão os protetores da raça humana. Obàtálá foi o primeiro que desceu e secou as águas. Ele será o eterno governante deste mundo e a minha segunda pessoa, e, por isso, será chamado de Enikéjì Èdùmàrè (Eni: pessoa; kéjì: segunda), devidamente retratado no seguinte texto:


Obàtálá, Ògirigbànigbo, aláyé ti wón nfi ayé fún.
(Obàtálá, o magnífico que possui o mundo e é dono de seu controle.)


Òrúnmìlà será o meu porta-voz, pela condição de ser conhecedor dos destinos de todos os habitantes da Terra e terá o título de Elérí Ìpín (Testemunha dos Destinos). Cada um de vocês terá uma responsabilidade especial para preencher os espaços da Terra.”


CONCLUSÃO:
Este mito possui três versões diferentes, de acordo com as tradições regionais yorubá. Revela a condição de primazia de Obàtálá, que seria chamado de Òsàlá, e o seu poder de realização, e de Òrúnmìlà, com o seu poder de sabedoria nas decisões a serem tomadas. É a associação de dois princípios para um objetivo seguro. A bebida passou a ser proibida aos filhos desse Òrìsà, dada a insegurança que ela transmite para a realização de tarefas cuja ética e moral devam sempre predominar. 


NOTAS: 

  • Olódùmarè: Nome do Deus Supremo do povo yorubá. Olódù - Senhor do Poder, maré - imputável, incomparável, absolutamente perfeito.
  • Òrun: Espaço abstrato destinado à morada das divindades e outras formas de espíritos. Divide-se em 9 partes destinadas a finalidades específicas, entre as quais: òrun rere - o bom espaço; òrun burúkú - espaço destinado às pessoas más; òrun ìsálú -  espaço do julgamento das pessoas. 
  • Òrìsà: Divindade intermediária entre Olódùmarè e os seres humanos, e identificada com fenômenos da natureza. Os vários Òrìsà são descendências do Ser Supremo, no sentido de que todos derivam Dele. O número de divindades varia de acordo com certas interpretações. A teogonia yorubá revela que, no começo, havia somente poucas divindades e que, devido a certos processos surgidos posteriormente, houve incrementação e multiplicação do número de Òrìsà. A fusão de clãs, a veneração de uma mesma divindade sob nomes diferentes e a divinização de personagens históricos foram fatores importantes. Assim, conclui-se que o panteão yorubá é composto de divindades primordiais e ancestrais que acharam seu caminho em razão de uma excessiva veneração por parte do povo, tornando-se idênticos com algumas antigas divindades.
  • Obàtálá: Também chamado de Òsàlá, e, em algumas narrativas de odù, citado apenas como Òrìsà.
  • Ifè: Principal cidade yorubá e onde se iniciou toda a cultura mítica. Está associada à criação do mundo. Fè - o que é amplo ou extenso. 
  • Òsè yorubá: Semana yorubá. Era composta apenas de 4 dias: Ojó Awo, Ojó Ògún, Ojó Jàkúta e Ojó Obàtálá, representando respectivamente, os 4 princípios: da Sabedoria, da Luta pela Sobrevivência, da Justiça, e da Criação.
  • Agemo: O camaleão. A preocupação que teve ao pisar nas novas terras criadas é que fez seus descendentes andarem de maneira cuidadosa. É um animal sagrado pela sua extraordinária capacidade de mudar de cor e mover os olhos sem movimentar a cabeça, o que lhe permite olhar em todas as direções simultaneamente.
  • Òrúnmìlà: Representa o princípio da sabedoria e a ele é dedicado o primeiro dia da semana yorubá.
  • Igi Òpe: A palmeira de dendezeiro. Produz dois tipos de óleo: epo pupa (azeite-de-dendê) - da parte externa do fruto - e o àdin - da castanha interna do coquinho. Do caule extrai-se um tipo de bebida - emu, o vinho de palma. Das folhas - imo òpe - são feitas vestimentas e coberturas, sendo que, nos cultos religiosos, as folhas mais novas são desfiadas e colocadas nas portas dos terreiros como forma de proteção pelo pacto feito com Ògún. Dessa forma recebe a denominação de màrìwò. (No Sul do Brasil, é comumente substituído o màrìwò pela “Espada de São Jorge” na porta das residências, também simbolizando proteção pelo Òrìsà Ògún.)
  • Vinho de Palma: Sua denominação entre os yorubás é emu, e entre os povos cabindas, é chamado de malafu, com variante para Marajó, sinônimo de aguardente.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os desígnios a Èsù na criação do Àiyé

(Extraído do livro "Igbadu, A Cabaça da Existência: Mitos Nagôs Revelados" de Adilson de Oxalá, com adaptações)

No Òrun, no princípio da criação do Àiyé (terra) e do homem,  Olódùmarè diz a Èsù: 


"Meu mensageiro! 


Quando te criei, coloquei em ti a ambiguidade de caráter.
O bem e o mal necessitam-se mutuamente para que possam existir, da mesma forma que a luz não pode ser percebida se não existirem trevas. Esta é a regra da criação. Todas as coisas que aparentemente se opõem, na verdade se complementam. Se completam e se integram para que haja o equilíbrio.
Tua palavra, como tua ação, nada mais é do que a confirmação do que está por mim determinado desde sempre
.

A ti outorgo o título de Elegbara, que significa Aquele que Possui Poder Ilimitado."


Olodumare provera Èsù de espírito moleque e zombeteiro, de inteligência e astúcia superiores a qualquer outro Òrìsà, além de ter a missão de funcionar como o agente mágico universal, o grande transformador, responsável pelos diferentes aspectos e formas assumidos pela matéria. Concedera-lhe ainda o poder ilimitado de se multiplicar em milhares de Èsù, sendo todos, ele mesmo. 

Nada viveria, nada teria forma, segundo seus planos, sem possuir seu próprio Èsù, individualizado, mas parte integrante do Èsù principal, Agba-Èsù (Èsù ancestral, o mais velho). E por este motivo, concedera-lhe o título de Ijelu, associado ao Okotó, caramujo cônico formado por espirais que se desenrolam infinitamente.


Dentre os inúmeros poderes conferidos a Èsù, Olódùmarè permitiu que ele se desdobrasse em 1.201 unidades, podendo, sempre que quisesse, acrescentar a esse número mais uma unidade, o que eleva ao infinito a possibilidade do desdobramento de Èsù. E aí está contido o mistério de sua associação ao número 1.




Em conversa com Òrúnmìlà, este  diz a Èsù:
_ "És fundamental dentro do sistema, e seja qual for o culto, a qualquer que seja o Òrìsà, estarás também sendo cultuado de forma muito especial. Nenhum procedimento religioso será aceito sem que tu sejas homenageado em primeiro lugar.


Tu serás o último dos Òrìsà que a sucumbir diante de Iku, pois, a partir do momento que isso ocorrer, tudo no Universo se desintegrará. As formas materiais deixarão de existir e o vazio absoluto tomará conta de todos os espaços.


Tu, Èsù, és a energia que reúne os átomos, possibilitando a diferenciação da matéria e, por este motivo, todas as coisas e todos os seres vivos possuirão uma parte de ti, e, para tanto, deverás multiplicar-te infinitamente, sem perder a qualidade e o poder de tua essência primordial, por isto teu nome – Èsù – Significa esfera." Explicou Òrúnmìlà .


Èsù responde:
_"O que me dizes, Mestre dos Sábios, me assusta e ao mesmo tempo me envaidece. Não gostaria, apesar de tudo, de ser obrigado a modificar meu caráter ou de ter que abandonar meu jeito brincalhão de encarar os acontecimentos, por mais sérios que sejam. " 


_"Como poderias deixar de ser como és, se esta é a vontade de Olódùmarè? É aí que reside teu poder. Sentimento algum irá, jamais, alterar a tua conduta ou a tua maneira de ser. Por este motivo deverás funcionar como árbitro, policial, carrasco e dispensador. Serás o prêmio e o castigo, não só dos seres materiais, como também das entidades espirituais. Todos, com exceção de nosso Pai (Olódùmarè), serão submetidos por tua ação. 


Serás visto por muitos como um espírito rebelde, que contesta o poder de Olódùmarè e, em muitos casos, servirás de arma do homem contra ele próprio, que, associando-te ao mal, tirará partido da ignorância de seus semelhantes para manipulá-los e explorá-los das mais diversas formas. Alguns dos teus fiéis, mesmo sem a plena compreensão da tua verdadeira função, usarão teus nomes para praticar o mal, e te confundirão com a prática condenável da magia negra e da feitiçaria." _ continuou Òrúnmìlà.
Exclamou Èsù:
_"Saberei como tratar essa gente! Ah, sem dúvida saberei..." 


Òrúnmìlà  concluiu:
_ "Tenho certeza que saberás, pois és sábio em tuas molecagens." 




quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Èsù, fiscal do àse: A visita de Òrúnmìlà à cidade de Òwò

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)

Ilé Ifè era o centro do mundo yorubá e o local que congregava grande parte dos personagens que viriam a ser conhecidos como Òrìsà e Ancestrais. Dentre eles, um que se destacava pela sua imensa sabedoria e poder orientador era conhecido por todos como Òrúnmìlà.


Em certa época, resolveu realizar uma jornada até a cidade de Òwò*, para rever o povo e observar como tudo estava se desenvolvendo. Antes, como medida de segurança, fez o jogo dos 16 ikin*, conhecido como Ifá. "É vedado ao Olúwo saber o que acontecerá", respondeu o jogo. O Olúwo efetuou outras jogadas, mas a resposta era sempre a mesma, o que fez com que Òrúnmìlà ficasse em dúvida de fazer a viagem; porém, o seu desejo foi maior e, assim, colocou seus elementos de jogo na sacola e partiu.


A distância para Òwò era longa e iria durar cinco dias. No primeiro dia de sua jornada, encontrou seu amigo Èsù, que estava vindo em direção contrária. Cumprimentaram-se e seguiram viagem, cada um para o seu lado.


No segundo dia de viagem, Òrúnmìlà encontrou novamente Èsù, vindo de Òwò. Òrúnmìlà estranhou o fato e perguntou a Èsù: "Você está vindo de Òwò? Èsù respondeu afirmativamente. Òrúnmìlà meditou sobre o fato, porque achou estranho que duas pessoas indo em direções opostas haviam tornado a se encontrar duas vezes no mesmo caminho.


No terceiro dia, ocorreu o mesmo encontro, o que motivou Òrúnmìlà a se perguntar mais ainda; porém, como estava ávido para chegar a Òwò, não parou para consultar o seu jogo. Afinal, estavam acontecendo coisas muito estranhas.


Ao chegar o quarto dia da viagem de Òrúnmìlà, Èsù se escondeu nos arredores da cidade de Òwò e, quando avistou Òrúnmìlà se aproximando, colocou alguns obì* dentro de um igbá*, deixando tudo ao pé de uma árvore. Adiantou-se e foi ao encontro de Òrúnmìlà, que se surpreendeu ao vê-lo, e disse-lhe: "Èsù, meu amigo, você está mesmo vindo mais uma vez de Òwò?" Èsù lhe respondeu: "É aceitável os amigos duvidarem um do outro? O que tiver que ser, será." Mas Òrúnmìlà não ficou satisfeito e continuou preocupado. Contudo, como estava próximo da cidade, mais uma vez não julgou necessário consultar seu jogo.


Obis
Seguindo mais adiante, encontrou os frutos do obì deixados por Èsù e, como estava cansado de sua longa jornada, apanhou-os e começou a comê-los. Neste momento, surgiu um fazendeiro de Òwò empunhando seu facão na mão de forma ameaçadora: "Você, quem quer que seja, está comendo os obí de minha árvore." Òrúnmìlà respondeu: "Não, eu os encontrei aqui no caminho e não vi árvore alguma." Mas o fazendeiro estava fora de si e falava duramente. Tentou tomar os obì de Òrúnmìlà, que reagiu, surgindo, então, uma luta entre ambos. Na briga, o facão do fazendeiro cortou a palma da mão de Òrúnmìlà e, por isso, eles se afastaram, o fazendeiro se retirou e Òrúnmìlà descansou na estrada e meditou sobre o acontecido: "Isso é coisa maligna. Quando se ouviu falar que algum dia Òrúnmìlà pegou algo que não fosse seu? Em Òwò irão dizer que eu sou um ladrão de obì." Com esses pensamentos a noite chegou e resolveu dormir ali mesmo.


Èsù, que tinha visto tudo, dirigiu-se para a cidade quando todos já estavam adormecidos. Entrou em todas as casas e, com a sua faca, cortou a palma da mão de todas as pessoas que se encontravam dormindo, até a do próprio rei de Òwò. Em seguida, foi para a estrada da cidade e lá se postou, aguardando o amanhecer, não sem antes fazer um pequeno corte em sua própria mão. 


Amanheceu, e Òrúnmìlà despertou. Fez suas orações matinais e tomou o caminho da cidade. Era o quinto dia de sua viagem. Na estrada da cidade encontrou Èsù, que o saudou, mas Òrúnmìlà mostrou-se envergonhado, pois, àquela altura, já havia percebido tudo. E disse: "Èsù, o assunto agora está claro e sei que a minha viagem não deveria ter sido realizada. Somos amigos; contudo, você tornou árdua demais a minha viagem." Èsù respondeu: "Òrúnmìlà, nós somos exatamente amigos próximos. Não hesite, entre na cidade e, se houver algum problema, eu o avisarei. Uma coisa eu prometo, você não será injuriado nessa cidade. Pelo contrário, boas coisas chegarão até você." Dito isto, ambos entraram na cidade de Òwò.


Ao chegarem na praça principal, encontraram o fazendeiro que havia reclamado o obì. Quando ele viu Òrúnmìlà, dirigiu-se até o rei e queixou-se, dizendo que o ladão de sua árvore vinha se aproximando. Narrou a luta que havia tido com ele pelos obì e exigiu que ele fosse punido.


Foi então que chegou a vez de Èsù falar: "Um estranho vem para Òwò com uma obrigação e é acusado de um crime. Onde está a prova? E como pode um ladrão de obì ser identificado?" O fazendeiro respondeu: "Nós lutamos na estrada e o meu facão cortou a mão dele. Esta é a prova." E o rei disse a Òrúnmìlà: "Então, abra a sua mão para que todos possam ver a verdade. "


Èsù tomou a iniciativa novamente: "Este estranho que não praticou nenhuma ofensa é o apontado, embora muitas pessoas possam ter roubado os obì. Somente ele é acusado e interrogado. Sendo assim, faça com que todos os cidadãos de Òwò mostrem também a palma de suas mãos." O rei concordou e determinou: "Sim, vamos fazer isso."


E Òrúnmìlà abriu suas mãos e estendeu-as, e o povo acompanhou. E todas as mãos, incluindo as do rei e as do fazendeiro queixoso, tinham um corte recente numa delas. E Èsù disse: "Se um mero corte é a marca da culpa, então todos em Òwò são culpados."


O rei concordou, dizendo: "É verdade, este estranho é inocente. Ele deve ser compensado pela falsa acusação contra ele." E o povo trouxe-lhe oferendas de todas as espécies, incluindo galinhas, cabras, obì, vinho de palma e ìgbín*.


CONCLUSÃO:
Para todo e qualquer emprendimento é costume saber o que determinam os Òrìsà. A prática da consulta está aliada às decisões que devem ser tomadas. Transgredir ou ignorá-las é ficar à mercê dos acontecimentos. 


Èsù surge dentro de sua característica principal, a de fiscalizar as coisas do axé, exigindo o cumprimento de suas determinações. A insistência de Òrúnmìlà o fez passar por situações difíceis, mas que foram contornadas por Èsù. É imprevisível a forma como Èsù decide resolver os casos. As diversas narrativas comprovam como as engenhosas artimanhas possuem soluções criativas, o que o torna difícil de ser entendido. 


Àqueles que têm a tarefa de utilizar o jogo em prol das pessoas, fica a mensagem: embora cuidem delas, não se omitam diante dos seus problemas pessoais. 


Essa narrativa está inserida no Odù Ogbè Ìká, que ainda revela que Èsù fez marca nas palmas das mãos de todas as pessoas, incluindo os embriões de crianças não-nascidas e ainda não-concebidas, para ter certeza de que todas as pessoas que nacessem no futuro teriam linhas nas palmas das mãos. 


NOTAS:
1. Òwò: Cidade localizada próxima a Ondo, cujo soberano é denominado de Olówò.
Ikin
2. Ikin: Coquinhos extraídos da palmeira de dendezeiro - igi òpe (Elaeis Guineensis) ou o igi ifá (Elaeis Idolatrica)- e escolhidos de acordo com certas reentrâncias localizadas em sua parte aguda e denominadas olhos. Esses caroços são os èkùró, mas, quando utilizados para o jogo, são chamados ikin, e devem possuir 4 olhos.
3. Olúwo: Grau na hierarquia de sacerdotes de Ifá. Olú: senhor; awo: mistérios que transcendem a compreensão humana. O mesmo que Bàbáláwo.
4. Èsù: Òrìsà com múltiplas funções; entre elas a de colocar as pessoas à prova. É o fiscalizados do comportamento humano e informante de Olódùmarè.
5. Obì: Noz de cola (Cola Acuminata). Fruto usado tanto para a prática religiosa como para a alimentação, por seu alto valor nutritivo.  Com apenas alguns gramas reduzidos a pó, permite empreender longas caminhadas e realizar trabalhos pesados sem se sentir fome ou cansaço, tendo sido utilizado com frequência pelos escravos.
Igbás
6. Igbá: Fruto da cabaceira (Curcubita Lagenaria - Lagenaria Vulgaris). Cortado ao meio, serve de vasilha para alimentos.








7. Ìgbín: Caramujo utilizado como comestível e oferenda por excelência aos Òrìsà da linhagem de Òsàlá, por ser possuidor do sangue branco. Possui características apaziguadoras, extraindo-se de seu interior um líquido denominado omi èrò, a água que acalma.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Por que Èsù (Bará) vive do lado de fora

(Texto e notas extraídos do livro "Mitos Yorubás: O outro lado do conhecimento" de José Beniste, com adaptações)


      A organização do mundo estava sendo feita, pouco a pouco, na medida em que os problemas vinham surgindo. Sempre que Òrúnmìlà comparecia à Terra para ver o andamento das coisas, ele era assediado pelos Òrìsà, pelos seres humanos e até pelos animais, com indagações diversas. Ainda não havia sido determinado qual o lugar em que cada criatura deveria viver e o que cada uma deveria fazer dentro do sistema. Era Èsù quem ponderava sobre os problemas e questões apresentadas. E, assim, sugeriu a Òrúnmìlà que, para cada um, apresentasse uma proposta simples e que cada um, ao responder, determinasse o seu destino e o seu modo de viver.


      Òrúnmìlà aceitou a sugestão de Èsù e saiu à procura das pessoas e dos animais. O primeiro que encontrou foi a galinha d'angola, e lhe perguntou: "Você concordaria em usar uma corda em volta do pescoço?" A galinha d'angola respondeu: "Não, eu não concordo." "Muito bem, você não usará uma corda no pescoço", disse Òrúnmìlà. Muitas outras criaturas foram questionadas com a mesma pergunta, e a resposta foi sempre a mesma. Com isso, perderam a oportunidade de se tornarem unidas. 


Mas quando Òrúnmìlà fez a pergunta à cabra, ela respondeu desrespeitosamente: "Você pensa que pode me obrigar a fazer isto?" Imediatamente a cabra passou a ter uma corda envolta em seu pescoço, assim como seus parentes, a ovelha e o carneiro, passaram a sofrer a mesma humilhação.


      Quando se perguntou ao cavalo se ele concordaria em carregar uma carga, ele também replicou de forma grosseira: "Quem pode forçar-me a fazer isto?" Imediatamente surgiram um homem sobre as costas do cavalo e freios em seus dentes. De acordo com as respostas que as criaturas davam, elas recebiam uma maneira de viver.


      Enquanto tudo estava acontecendo, Èsù ia à frente, mais preocupado em tentar confundir Òrúnmìlà, provocando dúvidas e confusão entre as criaturas. Isso estava sendo observado por Òrúnmìlà, que aguardava uma ocasião para dar uma lição a ele.


      E foi assim que Òrúnmìlà encontrou o homem e foi-lhe dizendo: "Homem, você escolhe a vida do lado de dentro ou do lado de fora da casa?" O homem respondeu que preferia do lado de dentro, e por isso foi decretado que o homem viveria em casa. Inesperadamente, porém, Òrúnmìlà perguntou a Èsù: "E você, Èsù, do lado de dentro ou do lado de fora?" Èsù que estava mais preocupado em criar problemas para os outros, ficou assustado com a pergunta inesperada e replicou imediatamente: "Do lado de fora"; quando percebeu o erro, tentou corrigir: "Não, é o contrário, do lado de dentro."


      Percebendo o embaraço de Èsù pela forma como havia sido feita a pergunta, Òrúnmìlà disse: "Foi você mesmo que propôs uma resposta direta, conforme combinou comigo; portanto, devo aceitar as primeiras palavras que saíram de sua boca. Daqui em diante, você viverá sempre do lado de fora."


NOTAS:

  • Èsù é relacionado à categoria Òrìsà Òde, ou seja, das divindades que são assentadas do lado de fora.
  • Nas regiões yorubás, Èsù é assentado na entrada das cidades. As pessoas que chegam pedem licença e deixam uma importância em dinheiro. Há também o costume de se assentar Èsù na entrada das residências. 
  • Èsù é uma divindade única que possui vários cognomes de acordo com os atributos referentes às suas atividades como Ójíse (o mensageiro), Elébo (transportador de ebo), Olóna(n) (o dono dos caminhos), Akésan (o que supervisiona as atividades dos mercados do rei), Òdàrà (identificado com as coisas do bem), Elégbára (o conhecedor do poder), Yangí, um nome que o define como o maior de todos de acordo com a expressão "Oba Bàbá Èsù" (rei e pai de todos os Èsù).
  • "Èsù Òtá Òrìsà"  (Èsù, o inimigo dos Òrìsà): essa expressão faz alusão ao seu papel de fiscalizador de todas as obras feitas, inclusive as dos Òrìsà, de forma incorruptível. "Olópa Olódùmarè láilái" (o fiscal de Olódùmarè desde os tempos imemoriais).