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Gravataí, RS, Brazil
Ìyálórìsà responsável pelo Ilê Ìyába Àse Òsun Doko, de Nação Ijexá, localizado na cidade de Gravataí-RS; filha de Pai Pedro de Oxum Docô. Contatos fone:(51) 9114-2964 ou e-mail fernanda__paixao@hotmail.com

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Por que Èsù (Bará) vive do lado de fora

(Texto e notas extraídos do livro "Mitos Yorubás: O outro lado do conhecimento" de José Beniste, com adaptações)


      A organização do mundo estava sendo feita, pouco a pouco, na medida em que os problemas vinham surgindo. Sempre que Òrúnmìlà comparecia à Terra para ver o andamento das coisas, ele era assediado pelos Òrìsà, pelos seres humanos e até pelos animais, com indagações diversas. Ainda não havia sido determinado qual o lugar em que cada criatura deveria viver e o que cada uma deveria fazer dentro do sistema. Era Èsù quem ponderava sobre os problemas e questões apresentadas. E, assim, sugeriu a Òrúnmìlà que, para cada um, apresentasse uma proposta simples e que cada um, ao responder, determinasse o seu destino e o seu modo de viver.


      Òrúnmìlà aceitou a sugestão de Èsù e saiu à procura das pessoas e dos animais. O primeiro que encontrou foi a galinha d'angola, e lhe perguntou: "Você concordaria em usar uma corda em volta do pescoço?" A galinha d'angola respondeu: "Não, eu não concordo." "Muito bem, você não usará uma corda no pescoço", disse Òrúnmìlà. Muitas outras criaturas foram questionadas com a mesma pergunta, e a resposta foi sempre a mesma. Com isso, perderam a oportunidade de se tornarem unidas. 


Mas quando Òrúnmìlà fez a pergunta à cabra, ela respondeu desrespeitosamente: "Você pensa que pode me obrigar a fazer isto?" Imediatamente a cabra passou a ter uma corda envolta em seu pescoço, assim como seus parentes, a ovelha e o carneiro, passaram a sofrer a mesma humilhação.


      Quando se perguntou ao cavalo se ele concordaria em carregar uma carga, ele também replicou de forma grosseira: "Quem pode forçar-me a fazer isto?" Imediatamente surgiram um homem sobre as costas do cavalo e freios em seus dentes. De acordo com as respostas que as criaturas davam, elas recebiam uma maneira de viver.


      Enquanto tudo estava acontecendo, Èsù ia à frente, mais preocupado em tentar confundir Òrúnmìlà, provocando dúvidas e confusão entre as criaturas. Isso estava sendo observado por Òrúnmìlà, que aguardava uma ocasião para dar uma lição a ele.


      E foi assim que Òrúnmìlà encontrou o homem e foi-lhe dizendo: "Homem, você escolhe a vida do lado de dentro ou do lado de fora da casa?" O homem respondeu que preferia do lado de dentro, e por isso foi decretado que o homem viveria em casa. Inesperadamente, porém, Òrúnmìlà perguntou a Èsù: "E você, Èsù, do lado de dentro ou do lado de fora?" Èsù que estava mais preocupado em criar problemas para os outros, ficou assustado com a pergunta inesperada e replicou imediatamente: "Do lado de fora"; quando percebeu o erro, tentou corrigir: "Não, é o contrário, do lado de dentro."


      Percebendo o embaraço de Èsù pela forma como havia sido feita a pergunta, Òrúnmìlà disse: "Foi você mesmo que propôs uma resposta direta, conforme combinou comigo; portanto, devo aceitar as primeiras palavras que saíram de sua boca. Daqui em diante, você viverá sempre do lado de fora."


NOTAS:

  • Èsù é relacionado à categoria Òrìsà Òde, ou seja, das divindades que são assentadas do lado de fora.
  • Nas regiões yorubás, Èsù é assentado na entrada das cidades. As pessoas que chegam pedem licença e deixam uma importância em dinheiro. Há também o costume de se assentar Èsù na entrada das residências. 
  • Èsù é uma divindade única que possui vários cognomes de acordo com os atributos referentes às suas atividades como Ójíse (o mensageiro), Elébo (transportador de ebo), Olóna(n) (o dono dos caminhos), Akésan (o que supervisiona as atividades dos mercados do rei), Òdàrà (identificado com as coisas do bem), Elégbára (o conhecedor do poder), Yangí, um nome que o define como o maior de todos de acordo com a expressão "Oba Bàbá Èsù" (rei e pai de todos os Èsù).
  • sù Òtá Òrìsà"  (Èsù, o inimigo dos Òrìsà): essa expressão faz alusão ao seu papel de fiscalizador de todas as obras feitas, inclusive as dos Òrìsà, de forma incorruptível. "Olópa Olódùmarè láilái" (o fiscal de Olódùmarè desde os tempos imemoriais).

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2011: Chega o ano de Oxum

2011 será regido pelo Orixá Oxum, orixá das águas doces, da fertilidade, da riqueza, da maternidade, do amor, da feminilidade, da astúcia, da vaidade.


Acompanham Oxum os Orixás Bará Ajelu, Xangô, Ossanha, Xapanã, Oxalá e Orunmilá.


E com este conjunto de Orixás o que esperar deste ano que se inicia?


Oxum não entra o ano com "mel frio", vem com intensidade e peneirando muitas coisas. Ao longo de 2011 tudo será colocado em sua devida ordem. Literalmente "será separado o joio do trigo."


Será um ano de "toma lá, dá cá", em que a colheita de cada atitude será rápida e inevitável! 


A todos que semearem coisas boas, será garantida a prosperidade, especialmente financeira; a fertilidade na vida! Porém será necessário o esforço, pois Oxum é um orixá que exige dedicação, veneração e cuidado. Ao povo de santo será imprescindível estar com obrigações em dia e em paz com seu Orunmalé pessoal.


Quem semear a discórdia, a confusão, a omissão, a maledicência e mesmo a arrogância não terá a mesma felicidade. Não haverá tolerância com mentiras, falsidades, preguiça, desleixos, maldades. Isso porque a energia de Xapanã, orixá que não aceita mentiras e falsidades, e de Oxalá e Orunmilá, orixás da clareza e sabedoria, não deixarão nada por debaixo dos panos. Tudo terá a sua devida repercussão, o que nos é garantido pelo Orixá Xangô, orixá da justiça e que dará a cada um o que merecer. 


O ouro, a riqueza, a doçura, a beleza e a alegria de Oxum estarão disponíveis na proporção do merecimento, e Oxum juntamente com Ossanha farão a prosperidade e a fartura tornar-se uma realidade, especialmente no último semestre.


Ótimo ano para cuidar da saúde e da beleza em todos os sentidos. Entregue-se à vaidade sem exageros e reserve algum tempo para atitudes de amor a você mesmo. Cuide bem do seu corpo, da sua mente e do seu espírito. Isso garantirá auto-estima em alta e realização interior.


Deveremos tomar muito cuidado com os excessos! Os ânimos estarão alterados e haverá muita euforia. Há uma forte energia de exus (catiços), que trazem magia e sedução, mas também ilusão. A entrega a prazeres momentâneos de forma desmedida trará consequências negativas. Cuidado com bebidas, drogas, sexo, comilanças, traições, gastos demasiados... O ideal é aproveitar toda a magia de 2011 com prudência, sem compulsões, para que a alegria seja real e não se torne um pesadelo após atitudes impensadas.


Plante coisas boas para aproveitar ao máximo as maravilhosas energias de Oxum! 


Que sejas merecedor e digno de todo o BOM AXÉ DE OXUM, para que a Mãe da fertilidade, riqueza, doçura e amor possa jorrar suas bênçãos sobre a sua vida!


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

"As maiores oportunidades da vida são desperdiçadas por falta de coragem e ousadia. 
O maior prazer da vida é sentir-se vivo! Então viva, apaixone-se, arrisque-se, chore, grite, dance,
dê ótimas gargalhadas...
Mas busque a sabedoria, a bondade, o amor, a paz interior, a verdade consigo mesmo, o respeito,
a dignidade, o caréter; são esses valores que fazem tudo valer a pena e torna a vida mais feliz!
A máscara fere mais a quem usa!
Então seja você mesmo, em qualquer situação, não há nada melhor do que ser digno de si mesmo."
                                                               Fernanda Paixão

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Itan: Como Oxum ganhou o título de protetora das crianças

Orumilá, orixá da sabedoria e da adivinhação, foi o primeiro esposo de Oxum. Um essé(relato) do odu Ogundá-xê, um dos 256 signos do sistema de Ifá, conta que Orumilá deu a ela 16 búzios como presente de núpcias, ainda hoje usados pelos sacerdotes de Oxum para se comunicarem com o Orun em favor de seus seguidores. Orumilá também permitiu à bela Oxum que fosse cultuada no mesmo dia que ele.


Infelizmente, Oxum não ficou grávida durante o casamento. De acordo com as tradições africanas, tal fato é uma desgraça, pois filhos são a prioridade de todo casal. Já aflita com a situação, ela resolveu dar a seu marido o direito de ter filhos e, relutantemente, deixou Orumilá.


Nove meses depois, Oxum conheceu seu segundo esposo: Xangô Aieledjê. Os dois descobriram instantaneamente que suas personalidades se completavam, e foram muito felizes como marido e mulher. Entretanto, sua adoração um pelo outro não remediou a incapacidade de Oxum em conceber filhos de seu novo marido. Muito desapontados, eles realizaram vários rituais, sem conseguir nenhum proveito. Mas Oxum não desistiu. Ela conversou com Xangô e ambos concordaram que ela deveria voltar para o seu primeiro marido, o adivinho Orumilá, pedindo que ele consultasse Ifá para apurar o que estava acontecendo.


Quando Oxum chegou à casa de Orumilá, ele ficou feliz em vê-La e foi imediatamente consultar Ifá. Orumilá assegurou a Oxum que esta história de não ter filhos iria logo terminar. Sua solução estava no palácio de Orun, o mundo espiritual: era para lá que Oxum deveria viajar a fim de buscar sua cura. Sua esterilidade se transformaria em fertilidade, e Olodumare, deus supremo, abriria as portas para as crianças virem ao mundo. O adivinho aconselhou Oxum a reunir os itens que haviam saído no jogo, para que se oferecesse um sacrifício especial em sua intenção. Assim foi feito.


Quando se deu por conta, Oxum estava no Orun escutando a voz de Olodumare, que perguntou a ela qual a razão de estar ali. Oxum ficou atônita, e Olodumare pediu que se acalmasse. Depois de oferecer a Oxum um lugar para se sentar, Ele começou a contar histórias de seres que vinham ao Orun para fazer pedidos semelhantes, lembrando que as crianças do Orun fugiam deles sem razão aparente.


Então Olodumare abriu a porta de onde as crianças estavam. Era a visão mais linda que se poderia ter. Oxum olhou maravilhada para uma multidão de meninos e meninas, que corriam para cima e para baixo, em grande algazarra. Quando as crianças viram Oxum, correram em sua direção. Ela então ofereceu-lhes doces, e assim mais e mais crianças aglomeravam-se ao seu redor. Todos foram seguindo Oxum, que se encaminhava para a divisa entre o Orun (mundo espiritual) e o Aiye (mundo material). Porém, logo que chegaram a este ponto, as crianças pararam abruptamente. Oxum deu às crianças as últimas gostosuras do pote no topo de sua cabeça e voltou para o mundo material.


Na sua chegada, entretanto, Oxum notou que as crianças não a haviam acompanhado e começou a chorar. Ela se debulhou em lágrimas e contou a Orumilá o que acontecera.


Orumilá aconselhou Oxum a não mais chorar, dando-lhe parabéns. Ele lhe contou que ela estava grávida e deveria parir logo. Não foi de outro modo. Quando Oxum ficou grávida de três meses, outras mulheres estéreis também engravidaram. E, quando a gravidez atingiu o nono mês, nada podia segurar os recém-nascidos que vinham ao mundo. Oxum usou ainda seus segredos para baixar a febre de seus filhos. Orumilá recomendou que as mulheres fizessem oferendas em favor de suas crianças e também de Oxum para demonstrar sua gratidão.


Toda vez que estas oferendas são entregues, deve-se entoar uma cantiga cujo significado é: “Saudações à Grande Mãe; aquela que usa jóias de bronze para acalmar a criança”.


Oxum passou a ser venerada na terra ioruba. Ela curou a febre de todas as crianças, que não tiveram nenhuma dificuldade desde então. Foi assim que Oxum ganhou o título de Irunmalé Olomowewê, divindade protetora das crianças.


(De origem presumidamente africana, mito contado pela norte-americana Ladekoju Lakesin, e extraído, com adaptações, do Livro "Oxum" de Luís Felipe de Lima, 104:108)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Considerações sobre as Eleições 2010

Lamentável! Mais uma vez não conseguimos eleger representante das religiões de Matriz Africana para o poder legislativo estadual. Especialmente com a vigência da Lei Estadual 13.085/08, a famosa “Lei do Silêncio”, que limita a emissão sonora especificamente em templos religiosos do Rio Grande do Sul e outras tantas leis criadas para coibirem nossa prática religiosa que já vieram... E certamente as que ainda virão.
Nossos candidatos a Deputado Estadual somaram juntos 17.146 votos, pouco mais da metade do mínimo necessário para eleger um Deputado Estadual, sendo 14.006 de Pedro de Oxum, 2.600 de Vera Soares e 540 de Tony. Enquanto os Evangélicos elegeram o Pastor Carlos Gomes com 59.144 votos à Assembléia Legislativa.
Flávio Luiz da Silva de Souza, representante dos afro-religiosos à Câmara Federal obteve 1.047 votos. Enquanto o evangélico Onyx Dornelles Lorenzoni foi eleito Deputado Federal com 84.696 votos.
Onde estão os religiosos de Matriz Africana?
Segundo a Pesquisa Socioeconômica e Cultural das Comunidades Tradicionais de Terreiro - Mapeando o Axé promovida pelo Ministério de Desenvolvimento Social, a região metropolitana de Porto Alegre tem mais de 3 mil terreiros. Se cada um desses terreiros contasse com 10 eleitores, seriam 30.000 votos apenas nessa região!
14.006 votos é um número expressivo a alguém que não tem história política e se candidata como Babalorixá, faz campanha com guia no pescoço e com o nome do Orixá no santinho. Infelizmente, ainda é insuficiente!
Até quando vamos ter que ficar tentando correr atrás do prejuízo após leis “anti-batuqueiras” serem publicadas? Até quando conseguiremos ainda praticar nossa liturgia com alguma liberdade? Ou será que vamos ter que nos esconder novamente para que não ouçam nossos tambores, sinetas, ou até mesmo o som que emitem nossos Orixás e entidades quando estão na terra?
Os números mostram que há uma GRITANTE falta de consciência política no país. Só no Rio Grande do Sul foram 487.153 votos em branco e 191.199 votos nulos para a Assembléia Legislativa. São 678.352 eleitores que decidiram não votar para Deputado Estadual!
No meio de inúmeros artistas e jogadores de futebol que se candidataram este ano, corruptos assumidos se reelegendo, e tantas outras “novidades”, o que mais me impressiona é a eleição do palhaço Tiririca, com o maior número de votos entre os candidatos a Deputado Federal no Brasil. Alguém em sã consciência consegue imaginar o Tiririca no Congresso Nacional? 1.353.820 paulistas votaram para que vejamos essa cena a partir de 2011! Isso se ele conseguir PROVAR nos próximos dias que não é analfabeto!!! Com o lema “Vote no Tiririca, pior do que está não fica”, o palhaço já fez história!
Espero realmente que Tiririca esteja certo no ponto “pior que está não fica”, porque vendo esse cenário político atual ........!?!?!?!?!?!?!



sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

QUAL O VALOR DO AXÉ?

Por que a maioria das pessoas preocupa-se hoje em dia com o custo de uma obrigação e não com o significado dela? Se é da vontade do meu Orixá que eu faça obrigação a ele, ele vai me colocar em um local sagrado, no qual ele está disposto a receber esse sacrifício, e não vai me dar condições de arcar com os custos materiais dessa obrigação? Tantos questionamentos a respeito de “valor de axé”, “custos de obrigação” levam-me sempre à pergunta: onde andará a fé nos Orixás?

Afinal, quem tem escolhido o destino religioso desses seres humanos que medem sua Orixalidade em valores materiais? Será que o Orixá dessas pessoas é tão ruim que as coloca em lugares nas quais serão humilhadas por não terem dinheiro de arcar com as suas obrigações aos próprios Orixás? Elas buscaram a real orientação do seu Orixá-Ori nesses momentos de escolha, de entrega e de comprometimento ou foram levadas por outros valores ou motivações no momento de entregarem sua vida espiritual e religiosa na mão de algum sacerdote?

Se o Orixá quer que seu filho faça obrigações com aquele sacerdote e é ali lugar que esse Orixá escolheu para que fosse feita essa ligação tão importante entre ele e o ser humano, que é o ponto-chave de toda a religiosidade africanista, a união entre o mundo material e o espiritual, ele não dará condições ao filho para isso?


Sabemos que essas questões são individuais, e só nós temos a exatidão do nosso relacionamento com nosso Orixá-Ori e com os demais Orixás que compõem nossa Orixalidade pessoal, pois isso não é algo apenas externo. Nossa conduta de fé ficará evidente em inúmeras situações do nosso dia-a-dia, àqueles que possuam conosco o convívio, mas a essência desse relacionamento estará sempre nas nossas mentes e nos nossos corações, na maneira como sentimos, pensamos e agimos... Na maneira como pessoal e internamente ACREDITAMOS e nos ENTREGAMOS.

“...ele não dará condições ao filho para isso?”
Caso isso aconteça, pode ser que esse “filho” seja dos tantos que realmente não estão prontos para ter essa ligação entre ele e o Orixá estabelecida, reafirmada ou continuada, o que é muito comum nos dias de hoje. Pode não ser da vontade do Orixá obrigação naquele momento, ou com aquele sacerdote. É possível que o Orixá queira ver a força da fé do filho em persistir e perseverar para dar-lhe a devida obrigação! Enfim, são inúmeras possibilidades nesse caso; em cada caso, pois cada ser humano possui seu Odu pessoal e seu relacionamento em nível individual com as divindades
.


Ao meu ver, as pessoas que ao longo do percurso abandonam a sua religiosidade e crença aos Orixás por fatores materiais ou interpessoais não estavam aptas para esta prática, para esta fé, para esta filosofia. Para praticar verdadeiramente a religião de matriz africana é necessária uma plena noção da responsabilidade que devemos ter perante as Divindades, responsabilidade essa que vai aumentando gradativamente com o grau iniciático.
Essa responsabilidade implica em SACRIFÍCIO.




Segundo dicionário disponibilizado on-line pela Priberam Informática:
“Sacrífício:
do Lat. sacrificiu
s. m.,
acto ou efeito de sacrificar;
oferta de vítimas ou de donativos à divindade, revestida de certo ritual, para expiação da culpa ou para implorar auxílio;
imolação;
sofrimento;
fig.,
privação voluntária em benefício de outrem;
renúncia;
abnegação;
(no pl. ) trabalhos, canseiras.”



Segundo o dicionário Michaelis:
“sacrifício
sa.cri.fí.cio
sm (lat sacrificiu)
1 Ação ou efeito de sacrificar. 2 Oferenda de animal, produto da colheita ou de qualquer coisa de valor, feita a uma divindade para lhe tributar homenagens, ou para reconhecimento do seu poder, ou ainda para lhe aplacar a cólera. 3 A pessoa ou coisa sacrificada. 4 Renúncia voluntária a um bem ou a um direito. 5 Ato de abnegação, inspirado por um veemente sentimento de amizade ou de amor. 6 Privação, voluntária ou involuntária, de uma coisa digna de apreço e estima. 7 Risco em que se põem os próprios interesses para interesse de alguém ou de alguma coisa. 8 Constrangimento, sofrimento. 9 Despesas, custos. 10 Bel-art Desprezo de certos acessórios para fazer realçar numa obra as partes principais. 11 No jogo de xadrez, entrega de peça ou pião com vistas a melhoria posicional. O s. de Jesus: a sua morte na cruz para redenção da humanidade. S. do altar: a missa. S. humano: imolação de uma pessoa como vítima à divindade. S. incruento: sacrifício em que não se derrama sangue; a missa. Espírito de sacrifício: inclinação, tendência para sacrificar-se por ideais, pessoas etc.”

Quantos tem a real noção de que nossa religião implica necessariamente em SACRIFÍCIO antes de fazerem o processo iniciático? Quantos “compram” a promessa que ser de religião africanista é uma vida apenas de caminhos abertos para dinheiro, amor, alegria e felicidade? Quantos vendem essa promessa? E quantos enchem a boca para se dizerem “filhos de Orixá” mas na verdade o que buscam dentro da religião são apenas satisfação material, amorosa, profissional, etc... mas na hora do sacrifício sempre estão cheios de reclamações, comparações, medidas!?!? Seres egoístas, mesquinhas e sem nenhuma noção de religiosidade, pois querem é apenas receber, sem fazer a sua parte para isso!


E a questão do sacrifício de valores materiais(dinheiro propriamente dito) ainda considero ser a mínima, apesar de ser tão ferrenhamente questionada e debatida. Tanto que essa parte aparece pequenina e apenas na segunda definição do que significa sacrifício (9 Despesas, custos).

Orixalidade e axé não se compra! Não têm valor em reais, dólares ou euros!!!

Quem é sacerdote religioso, já tendo atingido o grau mais elevado de obrigações aos Orixás e recebido os axés de Obé e Ifá, pode e deve colocar preço para disponibilizar de seu axé, de seus serviços como sacerdote religioso. E esses serviços não têm valor tabelado como carteiras de cigarro! Apesar de ser a preocupação de muitos “religiosos” a comparação de preços de axés! Muitos colocam a “cabeça a prêmio”, em que o que vale não é a vontade do Orixá, e sim quem “cobra” menos pelo “serviço”. E realmente, o pior de tudo é quem oferece o tal “serviço” de botar no chão! Uma tamanha falta de responsabilidade perante os seus próprios Orixás e de dignidade na utilização dos axés que deles recebeu!


Mas dolorosamente essa é nossa realidade!
Muitos nem sabem a diferença entre fazer um serviço e fazer a ligação entre o ser humano e seu Orixá-Ori. Entre fazer feitiços e assentar Orixás!

Os salões de batuque estão lotados!!! E há cada dia mais e mais salões!!!
Mas quantos desses seres humanos sabem o que estão fazendo ali?
Ou melhor, quantos sabem o que deveriam estar fazendo ali?
Ainda, sabem o significado de tudo isso?
Do que realmente é SER um religioso de matriz africana???




A minha resposta pessoal à pergunta inicial:
Qual o valor do axé? SACRIFÍCIO!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

DA ÉTICA


Uma das questões que mais tem me levado a profundas reflexões é a chamada "ética religiosa", do que realmente se trata, quais suas práticas e anti-práticas dentro da religião afro-riograndense e os malefícios que essas atitudes anti-éticas de Babalorixás, Iyalorixás e Omorixás trazem a nós praticantes e, principalmente, distorcem a visão de nossa religião na sociedade como um todo.
Cada dia ouvimos mais e mais relatos alarmantes, o que nos leva a pensar se existiria uma solução para a enorme crise em que se encontram as relações entre o homem e o sagrado, entre os homens entre si e entre esses mesmos homens quando o que têm em comum é o culto ao sagrado.
Estamos vivendo um momento em que o culto aos Orixás acabou se tornando objeto de comércio e disputas acirradas. Não há mais respeito pelo Orixá-Ori de cada ser humano, o que muitos enxergam é o que podem obter com cada cabeça que deite por debaixo de sua faca e acabam deixando de enxergar o Orixá e o ser humano para darem olhos ao lucro e/ou prestígio que cada omorixá (filho de santo) pode trazer para dentro de sua casa.

Na semana passada me deparei com a seguinte situação, que vou narrar a seguir:
Estava no Ilê de meu Babalorixá, prestando obrigação à minha Iyá-Ori Oxum Doko e outros 16 Orixás pessoais juntamente com outros irmãos de santo que também cumpriam obrigações a seus Orixás. Dez dias de trabalho com amor, dedicação, fé, responsabilidade perante as divindades e os humanos que ali se encontravam. Chegou o ápice da obrigação, a Festa Grande no sábado. O encerramento de meses de sacrifícios e trabalho árduo, para proporcionar aos meus Orixás, o meu "sagrado orunmalé" o melhor dos melhores. No final da festa me surpreendo com duas de minhas filhas de santo aterrorizadas com um dito "Pai de Santo renomado" que estava no Ilê de meu Babalorixá à caça de filhos de santo, entre esses, omorixás da bandeira de minha Iyá Oxum Doko.
A uma delas dizia este, insistentemente, que seu Orixá-Ori, confirmado há mais de 5 anos, estaria trocado e seu bori mal-feito. A outra, ofereceu-se para ensinar feitiços e ainda ajudá-la a fazê-los e a "segurar" seus efeitos, já que eu, sua Iyalorixá, me negava a ensiná-la a fazer danos e ainda sempre dei ordens para que não os fizesse. Isso deixando de lado o que o mesmo falou sobre os donos da casa, meu Babá e sua esposa, que jamais teria eu coragem de repetir tais palavras e menos ainda torná-las públicas.
Tal fato me causou uma mistura de indignação, raiva, asco e ainda pena! Pena de pessoas que se prestam a esse papel, irem a casa dos outros comerem de sua comida, dançarem para seus Orixás, participarem do momento de celebração de uma grande obrigação religiosa, como é o batuque de 4 pés, e ainda assim, usar dos bastidores para semear a dúvida, a discórdia, a maledicência e, principalmente, o desrespeito às divindades, à cerimônia em si e aos crentes religiosos que estavam ali dedicando seu tempo e suor para proporcionar a essas mesmas visitas um bom axé de prosperidade, alegria e doçura de nossos Orixás.
Minhas filhas com todos os ensinamentos que receberam de como agir em situações religiosas adversas e respeito à hierarquia, já que estava se tratando de uma pessoa mais antiga na religião, se ativeram a ficarem quietas com tal atitude, pois a confiança e o amor aos seus Orixás e sua Bandeira foram superiores à maldade de quem tentou imputar incertezas em suas mentes e corações.

Mas quantos estão realmente preparados para tais atitudes?

E quantos passam por cima de todos os limites de ética-social, respeito, educação, honestidade, boa conduta, seja esta pessoal ou religiosa; com objetivos carregados de egoísmo e vaidade?
Quantos ditos Pais e Mães de Santo estão aí vendendo feituras, axés, governos, e até cabeças? Cabeças sim, pois pagando bem, pode-se escolher o Orixá-Ori, o Ajuntó e ainda a passagem!!!
Porém, tal comércio só existe porque existem pessoas dispostas a pagar para satisfazerem seus desejos pessoais em relação a sociedade batuqueira. Títulos de babalorixás estão à venda como outra mercadoria qualquer, porém, me pergunto diariamente, qual a validade e garantia desses títulos??? Qual será a nocividade dos efeitos colaterais dessa epidemia a médio e longo prazo e o que será de nossa religião se os valores se corrompem e se perdem cada dia mais e mais ao longo do tempo???

Uma conscientização em massa do que realmente representa o culto aos Orixás, suas bases teológicas e filosóficas seria uma das maneiras de tentarmos reverter esse processo. Porém, enfrentamos uma enorme barreira nessa tentativa de difundir os aspectos culturais de nossa religião, pois em uma sociedade em que conhecimento é poder, e a falta deste pela maioria dos fiéis é a garantia da sobrevivência de muitos "Pais e Mães de Santo" e seus Ilês, essa atitude acaba sendo ameaçadora.

Afinal, muitos são os que lucram com essa desordem religiosa atual!


E quem perde é a Religião Africana como um todo!