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Ìyálórìsà responsável pelo Ilê Ìyába Àse Òsun Doko, de Nação Ijexá, localizado na cidade de Gravataí-RS; filha de Pai Pedro de Oxum Docô. Contatos fone:(51) 9114-2964 ou e-mail fernanda__paixao@hotmail.com

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Èsù - O Fecundador do Cosmos

(Extraído de Cultura Iorubá, Palestra de Juarez Tadeu de Paula Xavier, com adaptações)


Èsù é um personagem que teve toda a sua vida vilipendiada pela cultura ocidental. Pense nesta idéia: o europeu quando chega à África, primeiro para escravizar e depois para colonizar, não quer compreender aquela cultura, ele quer explicá-la de acordo com o seu referencial, porque precisa dominá-la. 


Representação de Èsù em África.
Imagem do Livro Orixás de Pierre Verger.
Eles chegam na África e conhecem uma figura que nunca tinham visto, que tinha uma forma de representação(Ogó) que eles ligaram ao diabo, e disseram: "isto não pode ser Deus, se isto se opõe ao sagrado, isto é o demônio, é o diabo". E a partir daí, o preconceito, a discriminação, o racismo e a ignorância fizeram o resto. 



Essa é a figura de Èsù, que foi sistematizada no Ocidente como se fosse o demônio. Mas a cultura africana não admite essa polaridade de bem e mau. Não existe isso para os africanos e para o Iorubá em especial. Essa noção de que se sou mau vou para o inferno e se sou bom vou para o céu, não existe para os Iorubás. Eles têm o Òrun Àiyé, onde Òrun é o lugar no qual se dá o sagrado a Àiyé é onde acontecem as coisas da terra, um é o céu e o outro é a terra, mas em um contexto muito mais complexo. 


Èsù apresenta aquilo que é mais importante para a cultura, que é fundamental na transformação Cósmica, tem uma representação que é o falo humano, que é a representação do Ogó. O "cara" chega lá e vê isso, um cara que é "casto", que pensa a relação da carne como um pecado. Os europeus chegaram lá, viram o Èsù e classificaram-no como o Diabo, o Demônio.


Para o africano não, para o africano o corpo é uma festa mesmo, e tem que ser tocado. A fertilidade é fundamental. O africano tem que ter filhos. Se ele não tem filhos ele morre para a posteridade. Ter filho é uma dádiva para os africanos!


Quando nasceu minha filhinha, eu ficava vendo aquelas músicas que o pessoal cantava assim: "Boi, boi, boi, boi da cara preta." Se eu for cantar isso ela vai ver que o boi da cara preta sou eu, é uma cantiga inadequada para você cantar para uma criança negra. Ai eu fui falar com uma velha africana, e ela me ensinou uma cantiga, que diz assim: "Vamos ao mercado comprar dendê e feijão porque a nossa criança vai chegar e ela é a riqueza da nossa casa". Olha que coisa diferente, por isso para o Iorubá ter filho é importante, por isso Èsù é essa representação, ele tem a representação do falo porque ele vai fecundando o Cosmos, sem ele o axé não se renova, e se não se renovar ele fenece e morre. Se Èsù não fecunda o Cosmos, esse Universo morre, acaba, não tem sentido. 


Èsù joga as sementes sobre o Cosmos, por isso a representação dele tem que ser um falo, e para o Iorubá isso é muito natural. Èsù é o único que pode se apresentar diante de Olodumare, porque ele é o único que está mais próximo dos homens, e é aquele que vigia o comportamento das divindades e dos homens. 




Degradar Èsù, vilipendiá-lo, justificou as violências cometidas contra o povo negro no período da escravidão. Èsù transita sobre todas as cores, e as cores são importantes para os Iorubás, porque elas representam axés especiais, como também elementos da natureza, a água, a terra, o fogo, o ar, que permitem a manifestação do sagrado. Então Èsù tem essa representação na qual aparecem o ogó, que é a representação do falo, tem as sementeadeiras que são seus saquinhos onde tem os "pós mágicos", e tem também a representação daquele que junta tudo. Ele é a representação do vivo, da vida e da morte, de tudo que existe no Cosmos, de todas as forças cósmicas, ele é a representação de absolutamente tudo. 


mito mais bonito de Èsù é um mito chamado Axé-Turá, aquele que nasceu sob a força do Axé, e depois transformou-se em Oxê-Turá, filho do Axé. É lindo e eu vou sintetizar:


"Segundo o mito, Olodumare chama seus dezesseis filhos mais antigos e mais poderosos, e para cada um deles dá uma missão: vocês vão para um lugar chamado Aiê, que é a Terra, para que as pessoas possam relembrar a nossa história. Você vai criar as florestas onde serão celebradas as memórias de nossos ancestrais. Você vai criar as florestas onde vai ser lembrada a memória de Oro. E assim foi distribuindo tarefas. Essas dezesseis criaturas vem e começam a criar o cenário favorável para o desabrochar da vida na Terra, no Aiê. E tudo que eles falassem poderia acontecer. "A palavra gesta o cenário!"Chegaram com essa missão. 


Quinze desses filhos eram homens, e apenas uma era uma mulher. Eles saíram pelo mundo afora fazendo as coisas e deixaram a mulher de lado. A mulher começa a sentir uma coisa complicada e começa a pensar: "eu tenho função", e ela usa um poder que só as mulheres têm para a cultura Iorubá, ela começa a usar o seu poder mágico das chamadas Iami, que são as representações femininas muito importantes. 


Tudo que eles vão fazer começa a dar errado, ele chega em um lugar e diz você vai ficar muito rico, e a pessoa fica pobre, você vai ter muitos filhos, e a pessoa fica estéril, você vai viver cem anos, e a pessoa morre no dia seguinte. E aquilo para eles é uma coisa maluca porque a palavra tem que gestar cenário. 


Eles reunem-se, vão até Olodumare e perguntam a ele o que está acontecendo, e ele pergunta de volta: "E o décimo sexto entre vocês?" E eles respondem: "É apenas uma mulher". Olodumare responde que sem essa mulher nada vai acontecer. 


Eles voltam à Terra e chegam diante dessa mulher e falam: "A partir de agora você vai andar conosco por todos os lugares onde nós formos, precisamos de você." E ela responde: "Agora não quero, esse projeto perdeu o valor para mim, não tem mais importância nenhuma." Depois de muito negociar ela falou: "Trago dentro de mim um feto, se for um homem, vou permitir que ele ande com vocês, se for uma mulher eu vou destruir essa realização, nós vamos fazer uma coisa em outro lugar. Mas há uma condição: todo o axé de vocês tem que ser passado para essa criança." Então todos os dias eles chegavam lá diante daquela barriga e passavam o seu axé. 


Passados os nove meses nasce a criança, Èsù!"





Dança das cabaças- Exu no Brasil

Documentário poético que investiga a divindade africana Exu no imaginário popular brasileiro dirigido por Kiko Dinucci.

Muito bom, vale a pena assistir!













Melhores informações e filme sem cortes no endereço:

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

III Marcha Estadual pela Vida e Liberdade Religiosa



Mais uma vez estaremos nas ruas de Porto Alegre lutando pelo respeito e pela dignidade do nosso povo, o povo do santo, 
o Povo do Axé!

Sozinhos somos apenas mais uma voz na multidão, 
mas unidos seremos fortes!

Participe e convide irmãos de Axé!


Algumas imagens da I Marcha Estadual pela Vida e Liberdade Religiosa, em 21 de janeiro de 2009:
http://www.orkut.com.br/Main#Album?uid=1666716186263237307&aid=1231675341

Algumas imagens da II Marcha Estadual pela Vida e Liberdade Religiosa, em 25 de janeiro de 2010, abrindo o Fórum Social Mundial:
http://www.orkut.com.br/Main#Album?uid=1666716186263237307&aid=1264606287

Èsù na consulta divinatória

(Extraído do livro "Jogo de Búzios: Um Encontro com o Desconhecido" de José Beniste, com adaptações)



 Apesar de profunda sabedoria, conhecimento e autoridade de Òrúnmìlà, às vezes ele fica na dependência do poder de Èsù, por este ser o GUARDIÃO DO À, representação da autoridade e do poder divino com o qual Olódùmarè criou o universo e manteve suas leis físicas. Èsù é, certamente, a divindade mais chegada a Òrúnmìlà, mas o seu relacionamento nem sempre é cordial, isso porque Èsù como fiscalizador        universal, é imprevisível e não pode, por consequência, ser aliado permanente de alguém.



 Èsù é o poder responsável que leva todos os sacrifícios e oferendas para as divindades, embora alguns mitos revelem que é a sua mulher - AGBÈRÙ - quem os recebe para entregar depois a ele. Èsù só não transporta oferendas para Deus - Olódùmaré - pois os yorubás acreditam que Ele não pode ser influenciado por oferendas, daí o dito "Tani le f'Olódùmarè lébo?" (Quem ousa oferecer sacrifícios a Olódùmarè?).


      O que é prometido deve ser cumprido. Èsù premia ou pune aquele que realiza o sacrifício e o que deixa de fazê-lo. Sobre isso diz-se: "Eni ó rúbo l'Èsù gbè" (Èsù apóia somente aqueles que oferecem o sacrifício).


      Alguns títulos e designativos revelam a sua função no transcorrer dos ritos:

  • ÈSÙ ELÉBO: o dono e regulador das oferendas (ebo)
  • ÒJÍSE EBO: mensageiro das oferendas
  • ELÉRÙ: senhor dos carregos (erù)
  • ÒSÉTÙWÁ: odù dos carregos
  • ÈSÙ OLÓBE: o dono da faca que esconde sob seus cabelos
  • ÈSÙ OLÓNA: o senhor de todos os caminhos
  • ENÚGBARIJO: boca coletiva (princípio da comunicação)
 Òrúnmìlà utiliza-se do ÀSE de Èsù, do seu poder e de suas funções acima relacionadas, para atuar e se expressar.

Em um dos Oriki de Èsù, destacamos alguns trechos para verificar como se processa a sua atuação:

1- Èsù òta òrìsà
sù inimigo dos òrìsà)
2- Òtùwá ni oruko Bàbá mò ó
tùwá é o nome que o Pai o chama)
3- O lé sonsó sí esè elésè
(Ele que senta no pé das pessoas)
4- A kìì lówó láì mú ti Èsù kúrò
(Aquele que tem dinheiro dá uma parte para Èsù)
5- A kìì láyò láì mú ti Èsù kúò
(Aquele que tem felicidade dá uma parte para Èsù)
6- Èsù àpáta sómo olómo lénu
(Èsù faz a pessoa falar o que não deseja)
7- O fi okúta dípò iyò
(Ele usa uma pedra em vez de sal)
8- Olópa Olódùmarè lailai
(O fiscal de Olódùmarè desde os tempos imemoriais)
9- Epo l'érò Èsù
(Epo - azeite-de-dendê- acalma Èsù)
'0- Oníbòdè Olórun
(O porteiro de Olórun)
11- Tani o gbà ebo?
(Quem recebe o nosso ebo?)
12- Èsù ni yio gbà ebo wa
(É Èsù que receberá nosso ebo)
13- Èsù gbe eni se ebo l'ore o
(Èsù apóia a pessoa que faz o ebo bem feito)
14- Èsù bò wá ba wa ré ìkóríta
(Èsù venha, acompanhe-nos até a encruzilhada)
15- Oba ló ni òpó
(O rei faz uso do trono)
16- Èsù ló ni ìkóríta méta
(Èsù faz uso da encruzilhada)
17- Jé a mú àse bò ìkóríta o
(Permita que voltemos da encruzilhada com àse)




      

Exu para Jorge Amado

Não sou preto, branco ou vermelho
tenho as cores e formas que quiser.
Não sou diabo nem santo, sou Exu!
Mando e desmando,
traço e risco
faço e desfaço.
Estou e não vou
tiro e não dou.
Sou Exu.
Passo e cruzo
traço, misturo e arrasto o pé
sou reboliço e alegria
rodo, tiro e boto,
jogo e faço fé.
Sou nuvem, vento e poeira
quando quero, homem e mulher
sou das praias, e da maré.
Ocupo todos os cantos.
Sou menino, avô, maluco até
posso ser João, Maria ou José
sou o ponto do cruzamento.
Durmo acordado e ronco falando
corro, grito e pulo
faço filho assobiando
sou argamassa
de sonho carne e areia.
Sou a gente sem bandeira,
o espeto, meu bastão.
O assento? O vento!..
Sou do mundo,nem do campo
nem da cidade,
não tenho idade.
Recebo e respondo pelas pontas,
pelos chifres da nação
sou Exu.
Sou agito, vida, ação
sou os cornos da lua nova
a barriga da rua cheia!…
Quer mais? Não dou,
não tou mais aqui.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Èsù na minisérie Mãe de Santo, exibida em 1990 pela rede Manchete

Em princípio apresenta os Orixás e inicia com Cântico a Olódùmarè.
Mostra a história de fundação do Ilê Axé Iya Nassô Oká / Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho,
 o terreiro mais antigo do Brasil, por três princesas trazidas da África na condição de escravas. 
A trama gira em torno dos fatos que antecederam o seu tombamento como Patrimônio Histórico do Brasil, o que aconteceu em 1984.
No terceiro capítulo são apresentadas características de Èsù, que é invocado para levar os apelos aos demais Orixás a fim de evitar a destruição do templo.
O quarto e último capítulo retrata o ritual de Ìpàdé, conhecido popularmente como Padê de Exu, 
cerimônia que antecede a todos os rituais de Candomblé.

Vale a pena conferir!









Orins de Èsù no Candomblé Ketu, muito semelhante às rezas
de Bará do nosso batuque do RS.








Orins de Bará Nação Cabinda- RS
Alabê Belerum de Oxalá