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Ìyálórìsà responsável pelo Ilê Ìyába Àse Òsun Doko, de Nação Ijexá, localizado na cidade de Gravataí-RS; filha de Pai Pedro de Oxum Docô. Contatos fone:(51) 9114-2964 ou e-mail fernanda__paixao@hotmail.com

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Encontro discutirá o reconhecimento de sacerdotes e sacerdotisas afroumbandista como Teólogos e Teólogas da Religião de Matriz Africana



O EGBÉ ÒRUN ÀIYÉ e a Associação Nacional de Teólogos e Teólogas da Religião Matriz Africana, com apoio do AFRICANAMENTE e da Comunidade Terreira Ilê Axé Yemonjá Omi Olodo promovem encontro para discutir o Projeto de Lei 114, de 2005, que dispõe sobre o exercício da profissão de Teólogo. A proposta, que tramita no Senado, é de autoria do Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e Senador reeleito pelo Rio de Janeiro, Marcelo Crivella.

O objetivo do encontro é debater o reconhecimento de sacerdotes e sacerdotisas afroumbandistas como Teólogos e Teólogas da Religião de Matriz Africana. A atividade, aberta ao público, acontecerá no dia 18 de fevereiro, a partir das 18h30, no Sindicato dos Previdenciários do RS – Travessa Francisco Leonardo Truda, 40 – 12º andar. A organização do evento irá fornecer certificados de participação.

O encontro também abordará a Classificação Brasileira de Ocupação - CBO no que se refere à identificação das ocupações concernente a Ministro de Culto Religioso (código 2631-05), Pareceres 241/1999, 51/2010, bem como da audiência pública convocada pelo Conselho Nacional de Educação do Ministério da Educação que tratou das Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Teologia no Brasil.



SERVIÇO:


O quê: Discussão sobre o reconhecimento de sacerdotes e sacerdotisas afroumbandista como Teólogos e Teólogas da Religião de Matriz Africana

Quando: 18 de fevereiro de 2011

Horário: 18h30 às 21h


Local: SINDISPREV (Sindicato dos Previdenciários do Rio Grande do Sul), Rua Travessa Francisco Leonardo Truda, 40, 12ºandar


Inscrições: gratuitas pelos telefones 3333-9225 e/ou 3354-7119

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ògún e seu poder sobre os metais

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)

Os Òrìsà e o povo estavam vivendo na Terra criada por Òsàlà, e onde todos exerciam suas tarefas: a caça, a limpeza da terra para a agricultura, a plantação, a construção de suas casas, para abrigo de suas famílias. Tudo era feito com muita dificuldade por falta de ferramentas adequadas para o trabalho e, agora, mais ainda, pois as distâncias aumentavam, a cidade crescia para o lado das montanhas, com seus terrenos desnivelados por gigantescas rochas com caminhos inacessíveis. 

Olhando o que tinha feito e o que estava por fazer, os Òrìsà discutiam a melhor solução para o problema. Diziam: "Deixe um de nós começar a tarefa, derrubando as árvores e limpando a terra. Depois poderemos plantar em nossos campos." Todos concordaram, exceto Olókun: "O meu domínio é a água. A terra e as árvores não são meus afazeres."

Òsányìn, o Òrìsà das folhas, disse: "Eu limparei primeiro os campos." E pegou a sua faca do mato, e partiu para as árvores, começando o seu trabalho. Mas a sua faca era feita de madeira e pedra, e, assim, ele não conseguia fazer o corte necessário. Após algum tempo de uso, ela quebrou. Òsányìn retornou e disse para os demais companheiros: "Eu comecei o trabalho, mas a madeira era tão dura que partiu a minha faca."


Òrìsà Oko, senhor dos campos livres, falou: "A minha faca é mais forte, e cortarei as árvores e destruirei as rochas." Em seguida, partiu para o trabalho, mas não conseguiu executá-lo como queria, pois a sua ferramenta não suportou a árdua tarefa. Disse então: "Aconteceu o mesmo comigo, a minha faca está cega e torcida."

Depois, Èsù, com seu corpo potente, armou-se com suas ferramentas e foi para o meio da floresta. Ali permaneceu por longo tempo e, quando retornou, seu semblante estava amarrado: "Eu limpei a terra e desloquei as rochas, mas o metal de minhas armas não é forte o suficiente para tal empreitada." Um por um os Òrìsà tentaram, mas não conseguiam fazer o que pretendiam. "Em que espécie de lugar estamos vivendo? Como poderemos sobreviver aqui?"


Até aquele momento, o único Òrìsà a se manter calado era Ògún, que observava todo o movimento sem nada dizer. Somente quando todos já haviam tentado, ele se levantou de onde estava e disse: "Nísisìyí àsìkò mi ni." ("Agora é a minha vez."). Dizendo isto, partiu para o campo. Executou o corte das árvores necessárias para a abertura dos caminhos; com potentes golpes destruiu as rochas, enquanto outras foram deslocadas para manter a terra livre das pedras. Toda a terra foi arada, amaciada e semeada. Deu novos caminhos, enquanto ia eliminando plantas desnecessárias. Ògún trabalhou até o final da tarde ininterruptamente. Quando terminou a sua obra, retornou para junto dos demais Òrìsà, que já o aguardavam. Lá chegando exibiu suas armas e ferramentas utilizadas. Estavam afiadas e intactas. 

Diante do que viam, perguntaram: "Que metal esplêndido é este?" Ògún respondeu: "O segredo desse metal me foi dado por Olódùmarè. É chamado de Irin, o ferro." Os Òrìsà olhavam as ferramentas de Ògún com muita admiração, dizendo: "Se tivéssemos o conhecimento do ferro, nada para nós seria difícil." Ògún observou o interesse de todos, mas relutou em ensinar o seu segredo. "Olódùmarè não me autorizou", disse. Mas não se negou a fazer armas e ferramentas a quem lhe pedisse. Para isso, construiu uma forja em sua casa e passou a fabricar os diversos tipos de armas e instrumentos de trabalho, pois Ògún, além de guerreiro, era um grande caçador. A caça, até aquela época, era efetuada com armadilhas e armas bem leves, além de se contar com muita sorte nas empreitadas. 

A relutância de Ògún continuava a incomodar os demais Òrìsà, que, embora estando com as novas armas criadas por Ògún, insistiam em conhecer o segredo de sua fabricação. Pensando no assunto, todos tomaram a iniciativa de dar a Ògún o título de Osìnmalè, o Chefe dentre as Divindades(osìn: chefe; irúnmalè: divindade). Considerando tudo isso, Ògún concordou com o pedido de todos. Passou a ensinar o processo de fazer a liga dos metais, a criação de armadilhas, ferramentas, lanças, espadas e facas. 

Em pouco tempo, todos os Òrìsà eram possuidores do conhecimento do uso do ferro. E vieram pessoas de outras regiões para aprender, e Ògún ensinou tudo a todos. Embora Ògún tivesse aceito o cargo de chefia que lhe fora dado por todos os Òrìsà, ele continuava a ser o grande caçador que era, pois muitos dependiam de sua capacidade para sobreviver.E, assim, embrenhava-se floresta adentro a fim de caçar os animais de que tanto gostava. Vestia-se de roupas de couro presas por màrìwò, equipava-se com as armas de luta e seguia seu caminho.

A atividade de caçador era muito árdua, obrigando-o a ficar isolado vários dias, dormindo sobre a terra ou em árvores. Ògún abatia muitos animais, em constantes lutas. Quando saía da floresta, estava sujo, seu cabelo, embaraçado, e as peles que vestia ficavam rasgadas e manchadas do sangue de sua caça. Seguia o caminho de volta à cidade para reencontrar seus companheiros.

Certo dia, os Òrìsà, ao verem Ògún chegando daquele jeito, disseram: "Quem é este estranho todo sujo que vem da floresta? Certamente não é Ògún, o qual indicamos para ser nosso chefe." Eles ficaram descontentes com Ògún e continuaram: "Um chefe deveria se manter com dignidade, suas roupas deveriam ser limpas, e o seu cabelo, bem aparado. Você está indistinguível do mais humilde caçador de Ifè, e o ar à sua volta está empesteado de carne morta." Dizendo isso, concluíram: "O cargo que lhe demos, nós o tiramos agora. Você não é mais o nosso chefe."

Ògún, ouvindo aquilo replicou: "Quando vocês precisaram do segredo do ferro, souberam implorar-me para ser o chefe de todos. Agora que já são possuidores do poder, dizem que eu cheiro mal." Falando isso, Ògún foi até o rio mais próximo, tirou suas roupas sujas de pele de animal e banhou-se. Quando já estava limpo, vestiu suas roupas de màrìwò(folhas de dendezeiro depois de desfiadas mediante um ritual específico), pegou suas armas e partiu para a cidade de Ìré. Construiu uma casa embaixo de uma árvore de akòko, lá permanecendo solitário, mas fiel aos seus compromissos de se manter vigilante nas terras de Ilé Ifè.




quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Por que saudamos Oya dizendo "Èpà Heyi"?

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)


"Èpà Heyi!", é uma forma de saudar e acalmar Oya. 


Sua origem se reporta ao rei Olúgbìjì, uma boa pessoa, mas que se encontrava em meio a uma rebelião. Consultando Ifá, foi informado que, em sua família, existia o culto a um Òrìsà que poderia ajudá-lo. Seu nome era Oya.


Foram-lhe feitas oferendas diversas, procurando sensibilizá-la. Oya aceitou tudo e se propôs a destruir os inimigos do rei. Mas um grupo de pessoas, sabendo de seu temperamento extremamente violento, pediu-lhe calma e lhe disse: "Se você continuar assim, irá destruir todo mundo."


Em face disso, foi-lhe sugerido que comprasse um escravo para assessorá-la e lembrasse às pessoas quando elas estivessem correndo perigo de vida, por infringir suas normas de conduta. Indicaram um escravo cujo o nome era Ehín, que em yorubá significa dente. "Este nome é horrível e vou mudá-lo", disse Oya.


Depois disso, sempre que Oya ficava furiosa, as pessoas passaram a chamar por Heyi, que, a partir daí, tornou-se a sua saudação. Èpà é uma interjeição exclamativa.



Por que Oya tornou-se dona do cemitério

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)


Olófin reinava em Ifè e tinha uma filha chamada Oya, que era desejada por Ìkú, a Morte. Ìkú era muito feio e estava sempre disposto a fazer o mal às pessoas. Seu costume preferido era levar qualquer pessoa para o cemitério, de onde ela nunca regressava. Certo dia ele foi até o palácio de Olófin e revelou seu desejo de casar-se com Oya. Olófin ficou surpreso com o pedido e lhe fez uma proposta: “Está bem, você poderá se casar com Oya, desde que se comprometa a trazer-me cem cabeças de gado.” Esta foi a maneira de se livrar de Ìkú, pois sabia que ele não poderia cumprir o pedido em razão de estar sempre sem dinheiro e nada ter na vida. 


Ìkú, que era, por sua vez, muito esperto, se deu conta de que Olófin, na verdade, não queria lhe entregar Oya, e, então, pensou em fazer uma contraproposta: “Para que queres cem cabeças de gado se posso fazer-lhe uma oferta melhor? Posso lhe trazer um homem que vale mais do que todas as rezes juntas e que irá trabalhar para você o resto da vida.” Olófin lhe perguntou: “E quem é essa pessoa?” Ìkú revelou: “É Àwòrò, o conhecedor de todos os poderes do bem e do mal, os que curam e os que matam.”


Olófin aceitou o que foi proposto por Ìkú, porque sabia que Àwòrò era muito religioso e cumpridor de seus deveres, fazendo tudo que os Òrìsà mandavam. Era homem de poucos amigos, entre eles o Ògá(o mesmo que Ogan), e o Àgbò, o carneiro. Não bebia e nem jogava, e, o mais importante, não tinha nenhuma relação com Ìkú. Olófin não se preocupou, pois sabia que Ìkú não teria como obrigar Àwòrò contra a sua vontade.


Ìkú saiu de lá, pensando em como cumprir com o prometido, quando no caminho avostou Àgbò, o carneiro, vindo em sua direção. Aproveitou a oportunidade, contou-lhe a conversa que havia tido com Olófin e lhe fez uma promessa: “Se me ajudares, eu te asseguro que nunca te levarei para o cemitério, ou seja, nunca morrerás.” Àgbò, apesar de amigo de Àwòrò, aceitou a proposta de Ìkú, mas disse que precisaria da ajuda de Ògá, a quem deveria fazer-lhe a mesma promessa. Isto feito, Ògá se comprometeu a ajuda-lo. Eles iriam levar Àwòrò ao cemitério naquela mesma noite.


Nesse meio-tempo, Oya tomou conhecimento do acordo entre Olófin e Ìkú, e resolveu ir até a casa de Òrúnmìlà, para uma consulta. E ele lhe disse: “Ìkú poderá até conseguir o que deseja, mas a traição dos amigos porá tudo a perder. Você, porém, poderá salva-lo se for ao cemitério e enfrentar Ìkú.” Oya temia Ìkú e, mais ainda, o cemitério, mas decidiu não dizer nada.


Naquele momento, Àwòrò estava em seu trabalho religioso, realizando suas orações, quando foi orientado a não abrir a porta para ninguém depois de se deitar. Por isso, ao chegar em casa fechou as portas mais cedo do que de costume, observando que elas estivessem bem trancadas. Não levou muito tempo, quando ouviu baterem na porta. Recostou-se na cama perguntando quem poderia ser. Ògá se identificou, dizendo que trazia para ele doce de coco, pois sabia que ele gostava muito daquele doce. Mesmo assim Àwòrò disse que não iria abrir a porta, pois já estava deitado. Ògá voltou para Àgbò, perguntando o que fazer. Àgbò pegou o doce de coco e, chegando até a porta, disse: “Àwòrò, somos seus melhores amigos. Se você não pode sair, abra um pouco a porta para que possamos lhe entregar o doce de que tanto gostas.” Àwòrò sentiu um desejo muito forte, e falou consigo mesmo: “O que pode me acontecer se eu abrir um pouquinho a porta?” Desceu e foi abrir a porta, quando o agarraram e se dirigiram ao cemitério.


Era uma noite bem escura, e todos estavam com medo de entrar, mas não viram outro jeito. Não tinham avançado muito, quando diante deles se apresentou Ìkú em sua verdadeira forma: todos os ossos à mostra. Era pura caveira. Ao ver o susto nos olhos dos dois, Ìkú os acalmou e eles se recompuseram. 
Contam que Àwòrò estava ali, mas que, no momento de ser entregue, surgiu entre os dois Oya, em meio a ruídos de raios, coriscos e ventanias. Os três saíram correndo espavoridos. Aproveitando o momento, Oya, para libertar Àwòrò, disse-lhe: “O doce de coco quase lhe custa a cabeça.”


Àgbò, ao sair correndo, passou pelo palácio de Olófin feito um bólido. Olófin veio vê-lo passar, suspeitando que algo de anormal estava acontecendo. Chamou seus guardas e pediu que trouxessem Àgbò. Isto feito, exigiu que contasse o que havia acontecido. Quando Àgbò acabou de contar, Olófin mandou buscar Ìkú, Àwòrò, Ògá e Oya. Ao te-los todos à sua frente, falou-lhes: “Ìkú, com a sua  maneira habitual de conseguir as coisas, o que de outra forma teria sido impossível, eu te condeno a que, de hoje em diante, não tenha amigos, nem bens, nem casa, nem nada. Que nunca sejas bem-vindo em nenhum lugar. Que vagues por todas as partes, por toda a eternidade em sua forma verdadeira.”


Olófin continuou em seu julgamento: “Àgbò, tu traíste o teu melhor amigo por querer a vida eterna; irás morrer quantas vezes um Òrìsà necessitar de ti. Quanto a Ògá, tu és culpado do mesmo delito; portanto serás condenado a que não descanses nunca e terás que estar à frente em todos os trabalhos que surgirem e sempre que for solicitada a tua presença. A ti, Àwòrò, eu não direi nada, pois o susto que passou por não obedeceres ao que os Òrìsà te determinaram já é o suficiente.”


E, por último, Olófin se dirigiu a Oya: “Tu salvaste a vida de Àwòrò e demonstraste a falsidade de dois amigos, mas sobretudo perdeste o medo de Ìkú. De hoje em diante serás a dona do cemitério e de tudo o que estiver dentro dele. Ìkú, que quis fazer-te mulher dele, de agora em diante será teu escravo e trabalhará para ti eternamente.” Dizendo isso, retirou-se satisfeito, certo de ter feito justiça.


NOTAS:

  • Olófin: Título que indica a função de um legislador e que vem de Oní, prefixo que indica posse ou comando, e Òfin, que significa lei. Oní + Òfin = Olófin. É um título dado a Olódùmarè, o Ser Supremo, como o Senhor das Leis Universais e, em outros casos, a Odùdúwà, como soberano de Ifè.
  • Ògá: Significa: senhor ou mestre na sociedade Yorubá. No Brasil, a grafia foi modificada para Ogan, um cargo masculino nas casas de Candomblé, também chamado de Pai e merecedor de todas as distinções. 
  • Ìkú: A morte. Na cultura yorubá é vista como personagem masculino.
  • Oya: Também conhecida como Yánsàn, princesa do reino de Irá. Òrìsà de características guerreiras idênticas às de Sàngó.
  • Àwòrò: é denominação usada para um sacerdote; literalmente, à: aquele, wò: que olha, orò: pelo ritual.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Oríkì ti Ògún

Ògún Alákàiyé Osìnmolè
(Senhor do mundo e líder dos Òrìsà)


Ògún olú irin
(O senhor dos metais)


Ògún aláda méjì
(O dono dos dois facões)


Olónà olà
(Dono do caminho da prosperidade)


Ògún gbénàgbénà igi lónje
(Controla os entalhadores e se alimenta da madeira)


Edun olú irin
(Dono de todos os instrumentos de ferro)


Ògún má dí òná(n) fún mi
(Não feche os caminhos para mim)


(Extraído do livro "As Águas de Oxalá: Àwon Omi Òsàlá", de José Beniste)





Os títulos de Ògún

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)

Ògùn vivia com sua mãe, Yemoja, no castelo nas profundezas do mar. Cansado dessa vida, resolveu sair em busca de outra que se adaptasse ao seu temperamento. Pediu licença a ela e partiu.

Já em terra, caminhava por meio da floresta quando sentiu fome. Sentou-se embaixo de uma árvore, quando viu animais correndo. Logo fez uma lança de madeira e caçou o seu primeiro animal. Após prepará-lo da forma como gostava, ele se alimentou e sentiu suas forças se revigorarem. Por este ato de caça , recebeu o título de Ògún Olóde(Senhor dos Caçadores), ensinando esta função ao seu irmão Òsóòsì, porque o seu temperamento não dava para ficar esperando pelos animais.


Seguindo o seu caminho, Ògún, mais adiante, tropeçou numa pedra, que nada mais era do que um minério de ferro. Pegou-o e viu que era consistente e ideal para servir como sua arma de luta. Preparou uma forja e modelou o minério em forma de espada. Produziu também outras ferramentas que serviram para um trabalho melhor na lavoura. A este minério, Ògún deu o nome de Irin, ferro, e por isso ficou conhecido como Bàbá Irin(Pai do Ferro).



Eis que eclode uma guerra, e os Òrìsà necessitam de ajuda. Òrúnmìlà pede que Sàngó chame seu irmão mais velho para derrotar os inimigos, pois ele tem os segredos da guerra e também das armas. Ògún reluta mas acaba cedendo aos pedidos de Sàngó. Na guerra, Ògún se destaca pela bravura, liquidando os inimigos com sua espada e saciando sua sede com o sangue de seus adversários. Logo a notícia se espalha e o povo, ao ver Ògún retornando, passa a chamá-lo de Ògún Aiaká Gbamu Èjè, que significa: Ògún recebe e toma o sangue.

Com a vitória de Ògún, ele é novamente chamado para outra tarefa.: desta vez, a tomada da cidade de Ìré. Ògún teve de destruir primeiro as sete cidades que cercavam e defendiam o povo de Ìré, o que o fez ser chamado de Ògún Méjèèjè e, mais tarde, ao entrar vitorioso na cidade, ser aclamado como Ògún Oníré(Rei de Ire).


Deixando seu filho, Ògúndahunsi, no governo das novas terras conquistadas, Ògún retorna à cidade e passa a trabalhar com muita atividade em sua firja, sempre acesa, pois tinha que fabricar mais armamentos e ferramentas de trabalho para atender aos pedidos vindos de todas as regiões. Ògún se vestia com um avental de couro quando estava em seu trabalho na forja de metais, e o povo passou a chamá-lo de Ògún Alágbède, o ferramenteiro, o senhor da forja.
Esta demonstração de arte no manuseio do fogo com o objetivo de fazer a liga dos metais necessários o faz dizer diversas vezes a expressão Orò mi’ná(n), que quer dizer: Meu ritual é o fogo. Os pedidos passaram a ser tantos, devido às vitórias obtidas com sua espada invencível, que Ògún chamou seu irmão Èsù para ajudá-lo nas tarefas. Só que Èsù começou a criar problemas e Ògún teve de acorrentá-lo a suas próprias pernas. Devido a isto, Èsù só ia onde Ògún fosse.

Acontece que Ògún foi chamado para comparecer a dois lugares diferentes, no mesmo dia e na mesma hora. Então, Ògún pediu a Èsù que fosse a um deles e que se fizesse passar por ele. Combinou que quando batesse palmas, Èsù deveria voltar rapidamente. Assim, Ògún partiu para um lado e Èsù para outro. O povo, pensando que era Ògún que estava em dois lugares ao mesmo tempo, denominou-o Ògún Aláméji.



Depois de algum tempo, quando Ògún estava seguindo para um outro trabalho, os cães que existiam na região começaram a avançar sobre ele, latindo sem parar. Furioso, Ògún bateu palmas, mas Èsù não apareceu. Ògún então se pôs em fuga em direção à montanha, com os cães o perseguindo. Ògún, cada vez mais furioso, começou a dilacerar e matar os cães com os dentes. E o povo, vendo aquilo, exclamou: “Ògúnjá!”, uma forma reduzida da frase “Ògún je aja”, que significa: “Ògún come cachorro.”


CONCLUSÃO:

A multiplicidade do panteão de divindades pode ser explicada através deste relato. A fusão de culturas e os feitos heróicos proporcionam cognomes e títulos anexados às divindades, motivando individualizações. Foram criados assim novos Òrìsà atrelados ao Òrìsà principal.


NOTAS:

  • Orí Òkè: O alto da montanha. Onde Ògún costumava permanecer em seus momentos de solidão. Dali ele partia para suas conquistas: “Ojóti Ògún nti orí òkè bò, aso Iná(n) l’o mu bo ara èwù èjè l’o wò.” (No dia em que Ògún estava descendo a montanha, estava vestido de fogo e usava roupa de sangue.)
  • Alada Méjì: O dono das duas espadas. É outro título de Ògún e que revela o seu conhecimento na criação de todos os tipos de ferramentas para todas as finalidades, como bem revela a simbologia de seu assentamento. A expressão seguinte bem revela o fato: “Ògún aláda méjì o nfi òkan sá’ko, o nfi òkan yè ònà.” (Ògún, o dono de duas espadas, com uma ele prepara a fazenda, com a outra ele desimpede a estrada. 

  • Ìkolà: Como artista, é Ògún quem dá o toque final ao trabalho criativo de Òsàlá. Após este haver acabado a moldagem do homem físico, é Ògún quem assume o trabalho da circuncisão.
  • Ìbúra: Juramento, promessa. É ainda o metal de Ògún utilizado nas cortes de justiça, para as pessoas que não são cristãs nem maometanas. Assim, fazem o juramento de “dizer a verdade e nada mais que a verdade”, beijando uma peça de ferro, geralmente um facão. Este acordo feito perante Ògún é considerado extremamente sério.
  • Méjèèjè: Literalmente significa todos os setes. O radical éje representa o numeral sete, advindo daí outras tantas denominações: èkéje, sétimo; nêmese, sete vezes; méjeméje, sete de cada vez; ìjéje, sete dias atrás. Esta qualidade de Ògun é conhecida popularmente como Ògún Méje.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Èsù- Da teoria à compreensão da prática

Durante este mês de janeiro dediquei-me a leituras e análises a respeito do Òrìsà Èsù, denominado Bará em nossa prática religiosa aqui no Rio Grande do Sul, selecionando alguns Itans ou trechos de obras que pudessem, de alguma forma, somar no aprendizado e compreensão acerca de nossa liturgia. Não é uma tarefa fácil, pois o gênero tem milhares de publicações, porém, em sua grande maioria, a fonte é insegura. E há centenas de mitos que em nada condizem com as crenças e feituras, os chamados “palha”, que tendem apenas a confundir ou criar impressões surreais, muitas vezes negativas, a respeito das divindades e demais elementos da cultura yorubana. E quando trata-se de Èsù, essas “palhas negativas” aumentam consideravelmente, pois é o Òrìsà mais preconceitualizado em terras ocidentais; inclusive em nossas práticas litúrgicas enxergamos esse “pudor ocidental”, especialmente aqui no Sul do Brasil. 


Um dos principais exemplos disto está na substituição do principal símbolo do Òrìsà Èsù, o Ogó, bastão em formato de falo(pênis), pela chave, um símbolo “ocidentalmente aceitável”. Vemos porém que Èsù / Bará não é simplesmente um “abridor de portas”. Isso designa apenas uma de suas várias funções dentro da crença yorubá. Ele é aquele que ultrapassa todas as portas, todos os limites, dentre todos os “mundos”, os espaços do Òrun e do Àiyé. Tem esse poder para cumprir sua função de comunicador universal, pois é ele quem estabelece a comunicação entre o ser humano e Olódùmarè (Deus Supremo), entre ser humano e Òrìsàs(divindades), entre o ser humano e demais entidades, entre Òrìsàs e Olódùmarè inclusive. Bem sabemos que não há como praticar qualquer ritual religioso ou oferendar o que quer que seja sem antes agradar Èsù. Não é apenas uma coincidência aleatória ele ser o 1° a ser chamado e agradado em qualquer cerimônia. Sem ele não há comunicação! Então tudo o que se fizer sem Èsù não alcançará sua finalidade, não chegará a quem se destinar, não haverão Òrìsàs “comendo”, dançando, recebendo oferendas e sacrifícios... Eles nem saberão do que está acontecendo, pois sem Èsù não existe o elo entre o material e o espiritual. 


A partir deste princípio, podemos perceber o porquê da necessidade individual de cada ser iniciado ter assentado seu Èsù individual, o porquê de cada Òrìsà ter o seu Èsù, responsável por “trabalhar” para ele. Caso não haja o Èsù ,ele(o Òrìsà) não receberá suas oferendas e sacrifícios. Assim como nós, seres humanos, para estarmos vivos, necessitamos dessa ligação entre o corpo material(ara), a cabeça(orí), a energia vital(èémí), espírito/alma(Òjììji). E é Èsù quem estabelece esse elo. Não é por acaso que quando alguém falece no mundo material usa-se a expressão “Bará abandonou o corpo”, assim como não é por acaso que o 1° passo do ritual de desligamento é o “despacho” do(s) Bará(s) pessoais da pessoa em questão. Obará é um dos títulos do Òrìsà Èsù, que significa “Rei do Corpo” (Obá: rei; Ara: corpo material). 


O Ogó simboliza bem mais do que apenas masculinidade. Representa fecundação, sem a qual não existe vida, transformação, abertura, multiplicação, continuidade, disseminação do àse. Também é o bastão que permite a Èsù locomover-se de um lugar a outro em milésimos de segundos. Este símbolo, julgado na ótica cristã-ocidental como símbolo de demonizarão e promiscuidade, é uma exaltação da vida em sua plenitude, do àse que se transforma e se renova, dando continuidade aos milagres da vida e da natureza, exaltação da imensurável sabedoria de Olódùmarè. 


Èsù também é conhecido como “provocador de situações”, aquele que “troca a lua pelo sol e o sol pela lua”, que brinca com a ordem natural das coisas. Quantas vezes falamos ou ouvimos dizer: “Quando resolvo um problema aparece outro!” ou “Quando acerto uma área de minha vida, aparece problema em outra!”. É Èsù! Aquele que está sempre nos colocando um novo desafio no caminho, um novo problema para resolver, muitas vezes sendo chamado de desordeiro e provocador de problemas. Porém, se olharmos através da perspectiva de que àse é força vital em movimento, em contínua transformação e renovação, a estagnação é que pode ser encarada como “contra-àse”, como desordem,  desequilíbrio. Então Èsù ao invés de ser o desordeiro, surge como quem coloca as coisas na ordem natural de transformação, mutação e movimento. É aquele que traz à nossa vida os desafios, oportunidades de crescimento, mudança, renovação e superação.


Èsù ainda é conhecido como o “fiscal do àse”, o responsável por premiar quem cumpre suas obrigações, bem como por castigar os que as deixam de lado. Através da crença da qual a oferenda é a restituição ritualística de parte do que consumimos, que nos é dado pela natureza, pelos Òrìsàs, por Olódùmarè, e a maneira de demonstrarmos gratidão e reconhecimento de que tudo parte desse Poder, inclusive nós mesmos, nossos corpos, nossa energia vital, nosso orí, nossa alma; constitui uma obrigação do restituir ritualisticamente o que nos é dado por Olódùmarè, para garantirmos a continuidade da vida e das bênçãos que recebemos dos Òrìsàs e da natureza (ver "Por que fazer oferendas e sacrifícios?_ A ida de Èsù e Òsétùwá ao palácio de Olódùmarè "). Èsù é responsável em garantir que façamos nossa parte para manter o equilíbrio do sistema. E esta regra não aplica-se apenas aos seres humanos, pois também as próprias divindades estão a mercê deste poder. A frase "Èsù Òtá Òrìsà" (Èsù inimigo de Òrìsà) faz alusão do papel de Èsù como fiscal inclusive das obras dos Òrìsàs, devendo comunicar qualquer ato a Olódùmarè. De tudo deve-se prestar contas perante o Poder Supremo, e a autonomia nesse campo de visão é sempre relativa. A toda ação corresponde uma reação, essa é uma das leis da natureza, uma das leis divinas. E dela nem mesmo as divindades escapam. 


Èsù longe de ser um poder negativo, como muitas vezes encarado inclusive por adeptos da religião dos Òrìsàs, é um Òrìsà primordial para manutenção da vida e do sistema no qual ela acontece. Um dos Òrìsàs mais próximos a Olòdùmarè e seu fiscal perante o homem e perante as divindades. 


É o comunicador, o multiplicador, o transformador, o fecundador, o desafiador, o elo; energia dinâmica inesgotável como o próprio àse!


Èsù fi ire bò wà o.
Èsù faça nossas vidas plenas de coisas boas!


Làlúpo!


Ìyálórìsà Fernanda Ìyánláfémi t'Òsun Doko