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Ìyálórìsà responsável pelo Ilê Ìyába Àse Òsun Doko, de Nação Ijexá, localizado na cidade de Gravataí-RS; filha de Pai Pedro de Oxum Docô. Contatos fone:(51) 9114-2964 ou e-mail fernanda__paixao@hotmail.com

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A designação do título de Òrìsà nlá

Òrúnmìlà

O universo divino de Olódùmarè foi constituído de seres primordiais; entre eles, os mais antigos: Obàtálá e Òrúnmìlà. Com a criação do novo mundo, decidem ambos instalar-se em uma das regiões da Terra. Òrúnmìlà leva todo o seu material divinatório para Òkè Ìgètí e ali passa a dar assistência àqueles que o procuram, desempenhando as funções designadas pelo Ser Supremo - a de atendimento e orientações sobre o plano de vida estabelecido. Quanto a Obàtálá, ele toma o caminho para as terras de Abéòkúta.


Obàtálá
No começo de tudo, quando Obàtálá criou a Terra e todos os seus atributos, ele fez a distribuição de todas as partes para todo o povo nelas viver suas vidas, cabendo para si a região mais árida e coberta de pedras, pois não queria privilégios. Então, em Abéòkúta, ergue a sua fazenda cujo terreno era mais rochedo do que solo fértil para plantação. Apesar de toda adversidade, suas terras eram as que mais produziam colheitas de todos os tipos. E o povo comentava: “Como podem as colheitas terem crescido em tal lugar?” Enquanto todos tinham trabalho árduo pela manhã até a noite, a produção da terra não se comparaca com a produção das terras de Obàtálá. Apesar de pouco trabalho, suas terras estavam sempre verdes, chovesse ou não; nunca havia falta do grão de milho ou de inhame.


O povo passou a comentar o fato, sentindo-se ofendido. Dizia: “Que espécie de pessoa é Obàtálá? Nossa parte da terra, melhor que a dele, não nos proporciona fartura para nos tornar ricos.” com esse pensamento cada vez mais tomando conta da cabeça de todos, passaram a cobiçar as terras dele. Com isso, arquitetaram planos para tomar suas terras. Esqueciam quem era Obàtálá e o que ele havia feito por todos. Passaram a observar seus passos e ficaram sabendo que ele estava interessado em contratar um ajudante. 


Era por isso que Obàtálá havia sido visto no mercado de Emùré! Adquiriu um escravo cujo nome era Àtowódá, que demonstrou ser muito prestativo no início, trazendo-lhe muita satisfação. Após algum tempo, o escravo pediu a Obàtálá um pedaço de terra para o seu cultivo. De bom grado lhe foi dado um pedaço de terra ao lado de uma montanha situada não muito longe da casa de Obàtálá. 


Em poucos dias, Àtowódá limpou tudo, transformando-o numa pequena fazenda, e ali construiu uma cabana. Isso impressionou muito Obàtálá, que depositou nele toda a sua confiança.


Àtowódá, porém, não tinha bons propósitos. Seu desejo, na verdade, era destruir Obàtálá e, com essa finalidade, vinha ordenando seu tempo, pensando no melhor modo de levar a cabo seu objetivo. E logo encontrou um jeito. Observou que, no caminho íngreme que levava até a sua cabana, havia pedras grandes encaixadas no solo e que soltando o solo abaixo dessas pedras poderia facilmente causar o seu rolamento montanha abaixo para esmagar Obàtálá a qualquer momento que subisse o caminho para fazer uma visita à sua fazenda. Então, selecionou cuidadosamente a pedra, de forma que, com um pequeno empurrão, ela pudesse rolar montanha abaixo para atingir Obàtálá.


Alguns dias mais tarde, Obàtálá seguia em sua caminhada habitual em visita às suas terras. Do topo da montanha, Àtowódá o espreitava. A habitual roupa branca de Obàtálá destacava-o do fundo verde de suas plantações. Quando Àtowódá se certificou de que não haveria chance para Obàtálá evitar que a pedra o atingisse, deu um empurrão na maior de todas. A pedra saiu rolando e se dirigiu a toda a velocidade para onde se encontrava Obàtálá, o qual, paralisado pela surpresa, não conseguiu escapar: foi atingido em cheio, e seu corpo, partido em muitos pedaços.




A notícia se espalhou por todos os lugares. Obàtálá havia sido destruído por homens invejosos. Èsù foi um dos que tomaram conhecimento da notícia e seguiu rápido para o local afim de verificar o ocorrido, seguindo depois para o òrun, com o intuito de relatar a tragédia a Olódùmarè. Este designou Òrúnmìlà para encontrar as partes do corpo de Obàtálá e trazê-las de volta. Òrúnmìlà seguiu imediatamente para o local, e, após um certo espaço de tempo perdido em lamentar o fato, executou um ritual que tornava possível a ele localizar todos os pedaços do corpo espalhados. Ele os recolheu num grande igbá e os levou para Irànje, antiga cidade de Obàtálá. Lá depositou uma porção dos pedaços que possibilitava fazê-lo renascer no òrun. O restante das partes do corpo, ele espalhou por “todo o mundo”, fazendo com que fossem surgindo novas divindades denominadas então de Òrìsà, daí a contração da frase “Ohun ti a ri sà”, que significa “o que foi achado e juntado”, alusão ao fato do recolhimento dos pedaços do corpo de Obàtálá.


Como as outras divindades surgidas do corpo de Obàtálá passaram a ter nomes derivados do dele, tornou-se necessário destacar o seu nome como Òrìsà nlá - O Grande Òrìsà -, que representa a soma de todos os Òrìsà juntos.


CONCLUSÃO:
Nos primórdios do mundo nagô, deu-se a oportunidade de uma convivência pacífica entre os seres humanos e as divindades. São dessa fase as inúmeras histórias relacionadas com os Òrìsà. Neste mito há a sugestão de que Òrìsà era originalmente uma unidade e que o processo de fragmentação transformara uma mesma divindade em várias outras. Revela, ainda, o arquétipo das pessoas identificadas com este Òrìsà: são pessoas constantemente iludidas em sua confiança. Embora portadoras de propósitos criadores e de grande bom-senso, têm a tendência de serem vítimas de inveja e falta de reconhecimento da obra que realizam.


NOTAS:

  • Òkè Ìgèti: Local montanhoso onde se presume que Òrúnmìlà tenha vivido, conforme alguns relatos da literatura de Ifá.
  • Abéòkúta: Cidade yorubá onde é mantido o culto a Yemoja, que é reverenciada no rio Ògùn, que corta toda a região. Abé - embaixo; òkúta - pedras.
  • Igbá: Fruto da cabaceira (Curcubita lagenaria) utilizado como recipiente e utensílio diversos, de acordo com a forma apresentada: akèrègbè - cabaça inteira; igbá - cortada ao meio; ahá - formato de copo; ìgbájè - em forma de prato.


(Extraído do Livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento", de José Beniste)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Òsàlá- O Grande Òrìsà



Principal divindade cultuada dentre os Òrìsà na escala religiosa. Sua cor branca representa sua própria essência ética e seu princípio criador. Ele é revestido de um poder absoluto em razão do Odù com que foi investido. A teologia yorubá o denomina “o gerado por Olódùmarè” no sentido de que todos os seus atributos derivam diretamente do Ser Supremo.


Òrìsà Funfun, divindades do branco, é a denominação dada à linhagem de divindades identificadas com a cor branca. 


Òsàlá é a forma reduzida a expressão Òrìsà nlá, ou Òrìsàálá - o Grande Òrìsà - título dado a Obàtálá, para diferenciá-lo das demais divindades na escala hierárquica. 


É visto como pai de todos os Òrìsà e a maior de todas as divindades, sendo por isso descrito pelos mais antigos como a imagem ou o símbolo de Olódùmarè na Terra. Um de seus títulos evidencia sua posição - Ibìkejì Èdùmàrè, a segunda pessoa de Olódùmarè, ou ainda, o seu vice-regente aqui na Terra, numa referência ao fato que os atributos de Olódùmarè são revelados através dele. Por este motivo, durante muito tempo os estudiosos o confundiam com o Ser Supremo. 


Òsàlá representa o princípio criador  e formalizador das idéias, daí ser denominado Elédá, o criador, em razão de Olódùmarè o ter indicado para a criação da Terra, com todos os seus atributos, e também para a criação do homem físico. As águas, Omi, e o barro primordial, Amò(n), são os elementos utilizados por Òsàlá para moldar o ser humano para, depois, Olódùmarè insuflar nele o princípio vital, o Emí, representado pela respiração, que irá lhe dar a vida. Essa tarefa de esculpir a figura física o faz ser chamado de Alámò(n) Rere, o perfeito escultor, embora muitas figuras humanas sejam esculpidas com deficiências físicas.


Amò(n) é o barro utilizado para a confecção de uma pequena vasilha denominada quartinha e que acompanha todos os assentamentos de Òrìsà. Por ser de barro natural e sem qualquer tipo de pintura, a água colocada em seu interior transpira e evapora, necessitando, assim, de um abastecimento constante. É uma lembrança do ser, feito do barro primordial, com o elemento da vida, Èmí.


Esse trabalho de criação o fez ser investido da condição de Alábáláse, aquele que tem o poder de criar com autonomia, aquele que sugere, Abá, e realiza com autonomia, Àse. É a dotação de um atributo de autoridade suprema para falar, agir e ser obedecido. Criar como bem lhe aprouver justifica a criação dos seres humanos perfeitos ou defeituosos: Abuké (corcunda), Àfin (albino), Kólòlò (gago), Aro (coxo), Iràrá (anão), Odi (mudo), Yaro (aleijado), Olójukan (caolho), Apákan (um braço só), Itíkan (uma orelha só), Ègbà (paralisia), Adití (surdo-mudo)...


Òsàlá dá forma às crianças e coloca-as no útero de suas mães. É assim o responsável pelas caracterizações normais e anormais dos seres humanos. As deformidades apresentadas ou que aparecem mais tarde, todas são encaradas como marcas especiais do poder de Òsàlá. A seguinte oração é típica das muitas que são recitadas:


“Aláàbáláàse
Ata ta bí àkún 
Òrìsà so mí di eni
So mi di eni èye
Obàtálá ma fiké pòn mi
Omo ni o fi fún mi”


“Aquele que sugere e determina
Aquele que é muito poderoso
Torne-me uma pessoa competente e honrada
Não ponha uma corcunda nas minhas costas
É uma criança(filho) que deve me dar.”


Para uma mulher grávida é dito:


“Ki Òrìsà ya’nà ire ko ni o.”
Que o Òrìsà crie uma boa obra de arte.


Dar filhos às mulheres estéreis e modelar a forma da criança no ventre materno originou o seguinte cântico:


Eni s’ojú, se’mú
Òrìsà ni ma sìn 
Adá’ni baú ti ri
Òrìsà ni ma sìn 
Eni rán mi wá 
Òrìsà ni ma sìn”


“Aquele que faz os olhos, faz o nariz
É o Òrìsà a quem vou cultuar
Aquele que cria como quer
É o Òrìsà a quem vou cultuar
Aquele que me enviou aqui
É o Òrìsà a quem vou cultuar”




Tudo o que é seu é branco: roupas, contas, comidas, animais, insígnias; o que representa a pureza moral e ética da qual é revestido. 


ORÍKÌ


Bàbá nlá! Oko Iyemowo
Ibi rere l’órísá ka'le
Òrìsànlá atererekáiye
Òrìsà nlá Adìmúlà
Olójú kará bi ajere
Èwù rè funfun ni
Adàgbà je ìgbìn
Eni oetì!


"Grande pai, marido de Yiemowo
O lugar feliz é onde ele está assentado

Grande Òrìsà que reina sobre todas as coisas
O grande Òrìsà Salvador
Ele tem olhos que vêem tudo
O manto dele é branco
O velho que come caramujo
Um ser nobre e imutável."

(Fonte: Livro "As Águas de Oxalá: Àwon Omi Òsàlá" de José Beniste)




sexta-feira, 18 de novembro de 2011

EBO = SACRIFÍCIO E OFERENDA

(Extraído de Òrun-Àiyé: o encontro de dois mundos: o sistema de relacionamento nagô-yorubá entre o céu e a Terra, de José Beniste, Editora Bertrand Brasil)


 Um ebo (ebó) pode ser definido como um ato de se fazer uma oferenda, do reino animal, vegetal ou mineral, de comidas, bebidas e qualquer objeto, a uma divindade ou entidade espiritual. É um ato mágico-religioso que se utiliza das forças naturais existentes nesses elementos para um determinado fim. Por este motivo costuma-se dizer que o ebo revela-se como a maior fonte de comunicação entre todas as fontes do universo.


A palavra ebo significa sacrifício e vem de bo - alimentar, palavra utilizada somente para òrìsà, coisas e animais, nunca para uma pessoa. Rírú ebo òrìsà significa oferecer sacrifício ao òrìsà. Na língua yoruba, não há diferentes nomes para definir o sacrifício de animais, de plantas, de oferendas ou trabalhos determinados pelo jogo de búzios. Tudo é conhecido por um só nome: ebo


Há uma tendência de se atribuir qualidades parecidas dos humanos às dos òrìsà, a quem as oferendas são feitas. Eles podem tocar, ouvir, sentir nossas emoções; têm apetites, desejos e tabus semelhantes aos seres humanos. Para manter essa comunhão, ofertam-se de forma regular as oferendas sob diversas formas, de acordo com a situação que se almeja.


IMPORTANTE:

TODO ATO MÁGICO RELIGIOSO POSSUI TRÊS ELEMENTOS:
1. A condição de competência daquele que realiza;
2. Palavras a serem proferidas em forma de reza - adúra -, saudações - oriki -, cânticos - orin -, e encantamentos - ofò -;
3. A forma de realizar os trabalhos e os locais adequados.




RELIGIÃO E MAGIA - O ÀSE (AXÉ)

(Extraído de Òrun-Àiyé: o encontro de dois mundos: o sistema de relacionamento nagô-yorubá entre o céu e a Terra, de José Beniste, Editora Bertrand Brasil)

Todo o culto yorubá tem sua significação pela crença nas forças divinas e na capacidade de elas darem o Àse (axé), elemento essencial para a existência da Religião de matriz africana e de tudo que nela existe e venha a existir. A palavra Àse possui três interpretações distintas, mas que se interligam por força do que eles representam:


ÀSE - como palavra, representa o “Que assim seja”, definindo o conceito de que é Deus, O Ser Supremo, somente Ele, que permite a realização de um pedido ou da outorga de algum poder. Ao se dizer Àse ao final de uma oração ou um pedido, a idéia é a de que “Deus é quem irá decidir se o pedido será aceito ou não”, embora a oração seja destinada a um Òrìsà. Nestes casos, o Òrìsà exerce a sua função de intermediário, intercedente junto ao Ser Supremo. Citamos o exemplo de uma invocação, Ìjúbà:


Olójó Òní, mo júbà  
(Senhor deste dia, minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Ìlà oòrùn, mo júbà
(Leste eu rendo minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Ìwò oòrùn, mo júbà 
(Oeste, eu rendo minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Àríwá, mo júbà
(Norte, eu rendo minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Gúúsù, mo júbà
(Sul, eu rendo minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Àkódá, mo júbà
(Ao primeiro ser criado, minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Adá, mo júbà
(Criador dos homens, minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Ilè mo júbà
(Terra, eu rendo minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Èsù Òdàrà, mo júbà
sù Òdàrà, minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)
Agbagba, mo júbà
(Aos ancestrais, minha homenagem)
Ìbà á se
(Que a homenagem seja aceita)


Sàsàrà, osé, àbèbè
ÀSE - como matéria, representa as forças e o poder de todos os elementos representados por símbolos que se identificam com as divindades: sàsàrà, osé, àbèbè, as folhas (ewé), árvores, cânticos, rezas, e a própria casa de Religião, muito apropriadamente definida como Ilé Àse, Casa do Àse, e sua dirigente definida como Ìyáláse, a Zeladora (Mãe) do Àse.






ÀSE - como fluido mágico que não tem forma mas é sentido, e que dá vida e forma a tudo que existe. Em sua relação de criar e recriar, se desgasta e é preciso ser revivido com preceitos, ervas e cânticos, com rituais diversos que permitirão a relação constante entre o àiyé e o òrun.


O próprio ser humano represente o Àse de Vida, sendo por essa razão a resposta sempre afirmativa, diante da saudação yorubá por excelência, ao se perguntar por uma pessoa:


Sé àlàáfíà ni? - Como vai você?
Àlàáfíà ni, a dúpé. - Vou bem, obrigado.


A palavra àlàáfíà é de origem árabe, e que no hausá é conhecida como lafiya; significa paz, saúde da mente e do corpo. No caso da saudação acima, literalmente significa “Você está em paz com Deus?” A resposta será sempre afirmativa, cujo agradecimento, a dúpé, na 1° pessoa do plural, possui dois sentidos: agradecer à pessoa que está perguntando e a Deus, por estar vivo. Se a pessoa está viva, está com o Àse de Olódùmarè. 


Para que o Àse se produza, é feita uma série de preceitos que se utilizam de símbolos e palavras que expressam o desejo a ser obtido. No culto ao Òrìsà, tanto a religião - èsin - quanto a magia - idán - são empregadas para atingir este objetivo. São tão interligadas que se torna difícil dizer quando uma invade o domínio da outra. Na realidade, uma ìyálórìsà ou qualquer outra pessoa que assume função sacerdotal é uma espécie de cientista, na medida em que procura descobrir (jogo de búzios) e aplicar (ebo) as leis do universo.


Há uma consciência de suas limitações, mas também há é consciente de que existem recursos no universo que podem ser utilizados em seu proveito e no da comunidade; ora apelando ao Ser Supremo por meio de preces, ora idealizando uma forma de captar forças elementares. Não há aí nenhuma forma de coação junto às divindades. O que a magia faz é utilizar os recursos proporcionados pelo Ser Supremo, para uso da humanidade. 



TODO ATO MÁGICO RELIGIOSO POSSUI TRÊS ELEMENTOS:
1. A condição de competência daquele que realiza;
2. Palavras a serem proferidas em forma de reza - adúra -, saudações - oriki -, cânticos - orin -, e encantamentos - ofò -;
3. A forma de realizar os trabalhos e os locais adequados.



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Vida... Cada manhã, um recomeço...

Uma nova oportunidade de reinventar, reciclar, reviver! 

Essa sábia magia de Olódùmarè, sapiência suprema e infinita, torna nossa vida ilimitada de possibilidades, com Axé se renovando a cada dia, a cada minuto, a cada momento.... 

VIDA É MOVIMENTO CONSTANTE, TRANSFORMAÇÃO, FORÇA, AXÉ DINÂMICO E INESGOTÁVEL... 

Tudo muda e se move o tempo todo no mundo, independente de nossas ações!

Só temos a opção de buscarmos nos movimentar positiva e construtivamente para nossa própria vida, ou simplesmente deixar a vida nos levar em sua correnteza... Apenas existe uma certeza: TUDO ESTÁ SEMPRE EM MOVIMENTO, O TEMPO TODO!

Que meu Ori me abençoe neste dia com um bom axé de movimento positivo, caminhos abertos e força para fazer o necessário para alcançar os meus objetivos pessoais pra hoje! 

AXÉ, AXÉ, AXÉ!


CHEGA DE INTOLERÂNCIA!


Campanha visa mobilizar a comunidade religiosa a defender seus direitos e esclarecer o restante da população que as religiões de matrizes africanas precisam ter seus ritos respeitados e não podem sofrer perseguição religiosa pelo fato de praticar sua fé.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"Cavalo de Santo- Religiões afro-gaúchas"

Livro "Cavalo de Santo- Religiões afro-gaúchas" 
da fotógrafa Mirian Fichtner

Maravilhoso trabalho!

























A obra fotográfica é resultado de minuciosa pesquisa de campo, de mais de 4 anos, que teve origem na constatação do IBGE, no censo de 2000, de que o Rio Grande do Sul é o estado que concentra, proporcionalmente, o maior número de adeptos declarados, bem como terreiros, de religiões africanas no Brasil.
O projeto já rendeu uma exposição em 2008, que esteve em cartaz no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. Para realizar o trabalho, Mirian contou com o apoio do jornalista e produtor cultural Carlos Caramez e do antropólogo Ari Pedro Oro, um dos maiores especialistas em religiões do país.
Através de fotos, a autora revela a singularidade, a força e a dimensão social e humana de práticas populares quase invisíveis no Estado, trazendo para o centro da cena a cultura das religiões de matriz africana em terras gaúchas. Destaca a pujança e a beleza de rituais e festas, assim como os seus principais personagens e as inúmeras vertentes das manifestações de fé: o batuque, a umbanda e a linha cruzada. Com a proposta de traduzir visualmente um dos mais emblemáticos fundamentos dessas religiões, a união do belo e do sagrado, Mirian mergulhou nessa realidade e testemunhou rituais nunca antes registrados por uma câmera fotográfica.
- Fotografei pais e mães-de-santo com mais de 50 anos de feitura e encontrei um povo de religião orgulhoso de sua fé e da sua cultura. Gente guerreira, incansável no trabalho diário de materializar rituais, preparar oferendas, festas, atender pessoas e manter esta cultura ancestral viva -ressalta Mirian que, entre 2006 e 2010, pesquisou cem terreiros, visitou mais de 30 casas e escolheu 13 para documentar, produzindo mais de 10.000 fotos.
Com destaque para o aspecto plástico, a força das cores, da poesia e da fé, o livro tem tratamento de arte, capa dura, no formato 28cmX28cm, em 5 cores, 168 páginas, com 153 fotos e textos bilíngües (português-inglês).
Fontes: http://wp.clicrbs.com.br/riogrande/2011/04/29/livro-cavalo-de-santo-sera-lancado-nesta-sexta-feira/
http://especiais.ig.com.br/zoom/cavalo-de-santo-religioes-afro-gauchas/




terça-feira, 23 de agosto de 2011

QUAL É A SUA ESCOLHA? QUAL É O SEU AXÉ?


"Olódùmarè dá a vida, cabe a cada um de nós decidir como vivê-la.


Não há como colher o que não se planta, nem plantar erva daninha e colher orquídeas.


Hoje posso escolher me lamentar por sair no frio e na chuva, ou agradecer a bênção de ter agasalhos, guarda-chuva e, especialmente, um bom emprego. Por ter minha casa e ter dormido em uma cama quentinha, eu e minha família, e não ter ficado ao relento. Por ter bons alimentos à mesa!


Carregar uma cara amarrada ou um sorriso, dar um simples "oi" ou um "BOM DIA" a quem cruzar pelo meu caminho, reclamar do mundo ou falar coisas agradáveis... 


Destruir meu corpo ou cuidar com amor o invólucro material de meu espírito, de minha Orixalidade, de meu Ori abençoado e consagrado, carregado de axé! 


Que axé terei eu se não der valor a todas as bênçãos que cercam minha vida, meu caminho, meu ser?


Que axé terei eu se utilizar minhas mãos e minha boca para coisas negativas? Afinal, os principais transmissores de axé são as mãos e as palavras!


Que axé transmitirei se não cuidar de mim; se não tratar com amor do meu corpo, do meu emocional, do meu espiritual? Como cuidarei de meus descendentes carnais e religiosos? Que herança deixarei de positiva em suas vidas?


Cada um é portador e transmissor de seu próprio axé. Fazer com que ele seja de maldade, mentira, vingança, dor, tristeza, raiva, rancor, ressentimentos, inveja,  lamentações... ou de crescimento, dinamismo, prosperidade, saúde, fartura, amor, fertilidade, doçura, força, luta, superação... é uma escolha de cada um de nós.


QUAL É A SUA ESCOLHA? QUAL É O SEU AXÉ?"





quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Otimista X Pessimista

O otimista enxerga e aproveita as oportunidades.

Quando aparecem as dificuldades ele pensa logo como ultrapassá-las para seguir em frente.

Tem ação pró-ativa frente aos problemas, foca-se nas soluções!

Mas o pessimista muitas vezes nem inicia o trajeto com medo do que pode dar errado.

Quando inicia, trava nos obstáculos, sofre com eles, lamenta-se... Tem ação passiva, vive afogado nos problemas.


DIFICULDADES TODOS TEMOS, O QUE MUDA 
É A MANEIRA COMO LIDAMOS COM ELAS!


‎"O homem que realmente deseja fazer algo sempre encontra um CAMINHO.

                        Mas o pessimista encontra logo um obstáculo."



Cada ser humano tem o livre arbítrio de escolher entre ser espectador da vida ou autor da própria história!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

PROVÉRBIOS AFRICANOS

Alguns provérbios dos povos do Congo, Costa da Mina, Takrur, Senegânbia, Etiópia e Zambézia.
  1. Não saber é ruim; não querer saber é pior!
  2. O saber é melhor que a riqueza.
  3. O saber é uma horta: quem não cultiva, não colhe.
  4. Os provérbios são filhos da experiência.
  5. Um homem sábio, que conhece provérbios, supera todas as dificuldades.
  6. A chuva lava a pele do leopardo, mas não remove as pintas.
  7. Árvore que já foi queimada é mais fácil de derrubar.
  8. Só depois de atravessar o rio é que se pode rir do crocodilo.
  9. Quem está se escondendo não acende fogo.
  10. Homem rico pode vestir roupa velha.
  11. A fome tanto dá no escravo quanto no rei.
  12. A lua se move lentamente, mas atravessa a cidade.
  13. O ódio é uma doença sem remédio.
  14. Mesmo forte e vigoroso, nenhum velho dura muito.
  15. Quando o bobo aprende o jogo, os jogadores já se foram.
  16. O rio de águas tranqüilas, esse é que é mais perigoso.
  17. O que é má sorte para um é boa sorte para outro.
  18. O tolo, ouvindo um provérbio, tem que ouvir a tradução.
  19. Quem não pode dançar, diz que a música é ruim.
  20. Quem vive dando banquete não vai nunca ficar rico.
  21. Quem trabalha por dinheiro nunca se envergonha dele.
  22. O dinheiro é traiçoeiro feito espada de dois gumes.
  23. Macaco velho casa é com macaca velha.
  24. O fogo e a pólvora não dormem na mesma esteira.
  25. Não se vê se um rio é fundo botando nele os dois pés.
  26. Dois antílopes pequenos podem bater num maior.
  27. O filho do carangueijo nunca vai ser passarinho.
  28. Quem não pesca peixe, come pão duro.
  29. Carinho só é bom de parte a parte.
  30. Amizade pra ficar é a que recebe e dá.
  31. Se não tem dois  não tem briga.
  32. Quem fala sem parar fala besteiras.
  33. Um pequeno bolor estraga toda a massa.
  34. Chuva fina, mas constante, faz o rio transbordar.
  35. O dendezeiro já está grande; mas quem sabe se vai dar bons frutos?
  36. Ver é muito melhor que ouvir.
  37. O mal sabe onde o mal de esconde.
  38. Atrás de todo homem rico há sempre um grande cortejo.
  39. Quem vai nos ombros dos outros não sente a grande distância.
  40. Quem se livra do cupim não está livre da formiga.
  41. A pedra do rio não sabe como a montanha é quente.
  42. Caolho quando vê um cego dá graças a Deus.
  43. As pernas dos outros não te ajudam a viajar.
  44. Boas palavras não enchem barriga.
  45. Se o touro vem pra cima, deite-se!
  46. O gavião voa alto, mas nem sempre volta pra terra.
  47. Quando o rato ri do gato, há um buraco por perto.
  48. Criança falou bobagem, é porque ouviu em casa.
  49. Quem põe navalha na boca, acaba cuspindo sangue.
  50. Quem atira, antes mira.
  51. Quem está em maus lençóis, sempre se lembra de Deus.
  52. Antes de curar os outros, cura-te primeiro.
  53. O pastor não maltrata suas ovelhas.
  54. Por mais que um pássaro beba, um elefante bebe mais.
  55. Primeiro cresce a cabeça, depois é que o chifre nasce.
  56. Por mais cheio que esteja o terreiro, a galinha sempre se ajeita.
  57. Peixe grande se pega é com grande isca.
  58. Quem recusa presente não enche o celeiro.
  59. As brigas acabam, mas as ofensas nunca morrem.
  60. Quem desarruma tem que saber arrumar.
  61. A vaca só pasta onde está amarrada.
  62. Laranjeira nunca vai dar limão.
  63. Comida boa acaba logo.
  64. Cabeça de elefante não é pra criança carregar.
  65. O homem que te transporta, se tem catinga, ignore!
  66. Cachorro que anda é que encontra o osso.
  67. Se você não pisar no rabo de um cachorro, ele não morderá você.
  68. A enchente leva para dentro, a mará baixa leva para fora.
  69. É tentando muitas vezes que o macaco aprende a subir da árvore.
  70. Coração de sábio mente tranqüilo como córrego límpido.
  71. O que se diz em cima de um leão morto não se diz a ele vivo.
  72. A criança é a recompensa da vida.
  73. Estar bem vestido não impede ninguém de ser pobre.
  74. Quanto mais cheio o rio, mais ele quer crescer.
  75. Amor é como criança, precisa muito de carinho.
  76. Os dentes estão sorrindo, mas o coração está?
  77. Não se ensinam os caminhos da floresta  um gorila velho.
  78. A morte não emite som de trombeta.
  79. Não importa se a noite é longa, pois o dia sempre vem.
  80. Os ausentes estão sempre errados.
  81. Carne, para que os amigos cheguem! Calúnia, para que fujam.
  82. Montei num elefante, os amigos chegaram; morreu o elefante, os amigos se foram.
  83. O elefante não sente o peso da própria tromba.
  84. A paciência alimenta, a preguiça não sustenta.
  85. A fama do feiticeiro se faz no próprio terreiro.
  86. Quem nunca teve desgosto não pranteia o mal dos outros.
  87. Quem sofre na casa-grande se desforra na senzala.
  88. Mais vale a prudência que o feitiço.
  89. A cabra come o capim que lhe apatece.
  90. Ter dois olhos é um orgulho, mas ter um só é melhor que não ter nenhum.
  91. Antes a água derramada que a jarra quebrada.
  92. Um camelo não ri da córcova do outro.
  93. Quem fez maldade que espere maldade.
  94. Toda boa obra merece recompensa.
  95. Um amigo burro é pior que um inimigo inteligente.
  96. É melhor ser amado que temido.
  97. Nem toda semente dá fruto.
  98. Quem gosta de dinheiro tem de trabalhar.
  99. Rato sensato não faz trato com gato.
  100. Palma da mão coçou, sorte grande a caminho.
  101. Quem queima uma casa não oculta a fumaça.
  102. Quem é mordido por cobra tem medo até de minhoca.
  103. Flecha pequena não mata cobra grande.
  104. Atrás da insensatez vem o remorço.
  105. Antes de falar, pensa-se primeiro.
  106. Um dedo sozinho não mata nem piolho.
  107. A experiência é que faz do tolo um sábio.
  108. A palavra é como a pedra: se atirada, não tem volta.
  109. Meia broa é melhor que nenhum pão.
  110. O figo mais bonito pode ter um bicho dentro.
Estraídos do livro "Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africanos" de Nei Lopes.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Criação da Terra por Òsàlà

(Extraído do livro "Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento" de José Beniste, com adaptações)

O que é agora nossa terra foi, certa vez, uma aguacenta e pantanosa imensidão. Acima havia o éter, o espaço celestial, denominado òrun e que era a morada de Olódùmarè, o Ser Supremo, dos Òrìsà e de outros seres primordiais. A aguacenta imensidão constituía, de certa forma, o local de caça para seus habitantes, que costumavam descer por cordas de teias de aranha formando pontes pelas quais andavam.


Conviviam com Olódùmarè vários Òrìsà; entre eles, Obàtálá (também conhecido por Òsàlá), Òrúnmìlà, Èsù, Ògùn e mais Agemo, o camaleão, criado de confiança do Ser Supremo. Na parte de baixo vivia Olókun, a divindade feminina que governava a vasta expansão de água e os pântanos selvagens.


Certa vez, Obàtálá, observando essa região disse: “Todo esse espaço não tem a marca de nenhuma inspiração ou coisa viva. Tudo é muito monótono.” Em seguida, foi até Olódùmarè e expôs seu pensamento: “O lugar governado por Olókun é uma mistura de mar, pântano e nevoeiro. Se existisse terra sólida naquele lugar - campos, florestas, morros e vales -, seguramente ele poderia ser habitado pelos Òrìsà e por outras formas vivas.” Olódùmarè respondeu: “Sim, seria uma boa idéia cobrir as águas com terra. Mas trata-se de um empreendimento ambicioso! Quem faria esse trabalho?” Obàtálá respondeu: “Eu tentarei e farei de tudo conforme o Seu desejo.”


Com a devida permissão, Obàtálá saiu à procura de Òrúnmìlà, que entendia dos segredos da existência, e dele recebeu instruções de como efetuar aquela tarefa. “Estas são as coisas que você deve levar: uma concha cheia de terra, uma galinha branca de cinco dedos em cada pé e um pombo.” Tudo providenciado, Obàtálá desceu através de grossas teias e, antes de chegar ao seu final, despejou o conteúdo da concha e, em seguida, lançou a ave encantada, que passou a espalhar a terra por todas as direções, com o pombo transportando todo o material de um lado para o outro. A terra que estava sendo espalhada foi tomando formas desiguais, originando morros e vales. Quando tudo havia sido feito, Obàtálá saltou da teia para a terra firme, pisou-a e a sentiu segura e firme, mas ainda estéril.


Obàtálá chamou o lugar de onde o trabalho havia sido efetuado de Ifè, que significa “aquilo que é amplo”. De acordo com a tradição, foi assim que Ifè, a cidade sagrada desse povo, obteve seu nome. A criação da Terra foi completada em quatro dias; o quinto foi separado para se reverenciar Olódùmarè, que, mais tarde, desejando saber como andavam as coisas na Terra, enviou Agemo para fazer uma inspeção em toda a região. Ao chegar lá, andou cuidadosamente para experimentar a terra. Achando-a firme, procurou Obàtálá e lhe disse: “Como você pode ver, a Terra está criada, mas ainda falta muita coisa - planta, árvores e gente - para habitá-la. E, mais ainda, há muita escuridão. A terra deve ser iluminada.”


Agemo retornou para o òrun e descreveu para Olódùmarè o que tinha visto e ouvido. Prontamente o desejo de Obàtálá foi atendido com a criação do Sol. Depois disso, surgiram o calor e a luz, no lugar que havia sido domínio exclusivo de Olókun. Em seguida, Olódùmarè enviou Òrúnmìlà para agir como conselheiro de Obàtálá, que levou consigo a primeira palmeira de dendezeiro, o igi òpe, para ser plantada. Deu também três outras árvores para serem plantadas - Iré, Awùn e Dòdo - que serviriam para extrair alimentos e agasalhos. Como não havia bastante água para ser usada, fez cair chuva sobre a Terra. Com todos os elementos em seu poder, Obàtálá completou a tarefa, equipando a Terra com matas, florestas, rios e cachoeiras. 


Logo depois foi designado para outro trabalho, o de modelar a imagem física daqueles que deveriam habitar toda a Terra criada. Para isso revolveu o barro e o umedeceu com a água das fontes, modelando, na forma determinada por Olódùmarè, figuras idênticas aos seres humanos. Obàtálá trabalhou sem descanso, vindo a ficar esgotado e com muita sede. Buscou socorrer-se com vinho de palma, o emu. Assim sendo, foi buscar entre as palmeiras do dendezeiro, o líquido para aliviar a sua sede. Ao extrair o líquido, deixou-o fermentar e depois bebeu-o por longo tempo, até que sentiu seu corpo amolecer e tudo à sua volta girar. Ao conseguir manter-se de pé, voltou ao trabalho, mas sem as condições iniciais. Com isso, vários modelos das figuras ficaram desajeitados, disformes, com pernas e braços tortos. Outros apresentavam as costas altas, cabeça desproporcional e estatura irregular, idênticos a anões. Mesmo assim, todos foram colocados em posição apropriada, aguardando a presença do Ser Supremo para dar vida a todas essas figuras inanimadas. 


A instrução dada a Obàtálá, portanto, era a de que, quando tivesse completado a sua parte na criação do Homem, avisasse Olódùmarè, que então viria para das vida, colocando o emìí em seu corpo, completando, assim, a criação do ser humano. De meras figuras de barro moldado, transformaram-se em seres de sangue, nervos e carne. Com a vida insuflada em suas narinas, começaram a andar e a fazer as coisas necessárias à sua sobrevivência. 


Quando cessou o efeito do vinho de palma, Obàtálá viu que alguns seres humanos que havia moldado estavam deformados. Ficou triste e sentiu remorso. Então disse: “Nunca mais beberei vinho de palma. Serei sempre o protetor de todos os humanos defeituosos ou que tenham sido criados imperfeitos.” Por causa dessa promessa, os seres humanos coxos, cegos, sem braços, surdos, mudos e aqueles que não têm pigmentos em suas peles, os albinos, são chamados de Eni Òrìsà, pessoas especiais sob a sua proteção. 



Todos viviam uma vida pacífica em torno de Obàtálá, que era o seu rei e orientador. Mesmo sem as ferramentas adequadas, pois ainda não existia o ferro no mundo, o povo plantava e semeava. As árvores se multiplicavam, e o povo crescia juntamente com a cidade de Ifè, seguindo tudo conforme a sua determinação. Assim, Obàtálá decidiu voltar ao òrun, tendo sido preparada uma grande festa para a sua chegada. Ali, junto aos demais Òrìsà, ele relatou as coisas existentes no novo mundo e todos se mostraram decididos a viver com os seres humanos criados. Desse modo, muitos Òrìsà partiram para a Terra, mas não sem antes ouvir as instruções de Olódùmarè quanto às obrigações de cada um. Deixou a seguinte mensagem para todos: 


“Quando vocês se fixarem na Terra, nunca se esqueçam de seus deveres para com os seres humanos. Todas as vezes que eles tiverem suplicando por ajuda, observem com atenção o que estão pedindo. Vocês serão os protetores da raça humana. Obàtálá foi o primeiro que desceu e secou as águas. Ele será o eterno governante deste mundo e a minha segunda pessoa, e, por isso, será chamado de Enikéjì Èdùmàrè (Eni: pessoa; kéjì: segunda), devidamente retratado no seguinte texto:


Obàtálá, Ògirigbànigbo, aláyé ti wón nfi ayé fún.
(Obàtálá, o magnífico que possui o mundo e é dono de seu controle.)


Òrúnmìlà será o meu porta-voz, pela condição de ser conhecedor dos destinos de todos os habitantes da Terra e terá o título de Elérí Ìpín (Testemunha dos Destinos). Cada um de vocês terá uma responsabilidade especial para preencher os espaços da Terra.”


CONCLUSÃO:
Este mito possui três versões diferentes, de acordo com as tradições regionais yorubá. Revela a condição de primazia de Obàtálá, que seria chamado de Òsàlá, e o seu poder de realização, e de Òrúnmìlà, com o seu poder de sabedoria nas decisões a serem tomadas. É a associação de dois princípios para um objetivo seguro. A bebida passou a ser proibida aos filhos desse Òrìsà, dada a insegurança que ela transmite para a realização de tarefas cuja ética e moral devam sempre predominar. 


NOTAS: 

  • Olódùmarè: Nome do Deus Supremo do povo yorubá. Olódù - Senhor do Poder, maré - imputável, incomparável, absolutamente perfeito.
  • Òrun: Espaço abstrato destinado à morada das divindades e outras formas de espíritos. Divide-se em 9 partes destinadas a finalidades específicas, entre as quais: òrun rere - o bom espaço; òrun burúkú - espaço destinado às pessoas más; òrun ìsálú -  espaço do julgamento das pessoas. 
  • Òrìsà: Divindade intermediária entre Olódùmarè e os seres humanos, e identificada com fenômenos da natureza. Os vários Òrìsà são descendências do Ser Supremo, no sentido de que todos derivam Dele. O número de divindades varia de acordo com certas interpretações. A teogonia yorubá revela que, no começo, havia somente poucas divindades e que, devido a certos processos surgidos posteriormente, houve incrementação e multiplicação do número de Òrìsà. A fusão de clãs, a veneração de uma mesma divindade sob nomes diferentes e a divinização de personagens históricos foram fatores importantes. Assim, conclui-se que o panteão yorubá é composto de divindades primordiais e ancestrais que acharam seu caminho em razão de uma excessiva veneração por parte do povo, tornando-se idênticos com algumas antigas divindades.
  • Obàtálá: Também chamado de Òsàlá, e, em algumas narrativas de odù, citado apenas como Òrìsà.
  • Ifè: Principal cidade yorubá e onde se iniciou toda a cultura mítica. Está associada à criação do mundo. Fè - o que é amplo ou extenso. 
  • Òsè yorubá: Semana yorubá. Era composta apenas de 4 dias: Ojó Awo, Ojó Ògún, Ojó Jàkúta e Ojó Obàtálá, representando respectivamente, os 4 princípios: da Sabedoria, da Luta pela Sobrevivência, da Justiça, e da Criação.
  • Agemo: O camaleão. A preocupação que teve ao pisar nas novas terras criadas é que fez seus descendentes andarem de maneira cuidadosa. É um animal sagrado pela sua extraordinária capacidade de mudar de cor e mover os olhos sem movimentar a cabeça, o que lhe permite olhar em todas as direções simultaneamente.
  • Òrúnmìlà: Representa o princípio da sabedoria e a ele é dedicado o primeiro dia da semana yorubá.
  • Igi Òpe: A palmeira de dendezeiro. Produz dois tipos de óleo: epo pupa (azeite-de-dendê) - da parte externa do fruto - e o àdin - da castanha interna do coquinho. Do caule extrai-se um tipo de bebida - emu, o vinho de palma. Das folhas - imo òpe - são feitas vestimentas e coberturas, sendo que, nos cultos religiosos, as folhas mais novas são desfiadas e colocadas nas portas dos terreiros como forma de proteção pelo pacto feito com Ògún. Dessa forma recebe a denominação de màrìwò. (No Sul do Brasil, é comumente substituído o màrìwò pela “Espada de São Jorge” na porta das residências, também simbolizando proteção pelo Òrìsà Ògún.)
  • Vinho de Palma: Sua denominação entre os yorubás é emu, e entre os povos cabindas, é chamado de malafu, com variante para Marajó, sinônimo de aguardente.